Causalidades dramatúrgicas e balizas geométricas territoriais perderam, há muito, o seu lugar de ordem no cinema fraturado que o moçambicano Ruy Guerra se aventura a fazer, sem nunca arredar pé de um lirismo (ainda que fadista, atento às moiras da moral) partilhado com a sua obra paralela como compositor e poeta. Desterra-se, inclusive, na trilha do chamado “cinema político”, que ecoa na sua cinefilia mais por Salvatore Giuliano (1962) — também conhecido como O Bandido Giuliano — e por muitos filmes de Pier Paolo Pasolini do que pelas semiologias de Jean-Luc Godard. É o que comprova o agónico A Fúria — parte final de uma trilogia aberta em 1964 —, ao adotar uma estrutura onde a Morte e a Vida se bifurcam sem fronteiras absolutas. O Tratado de Tordesilhas que separa a razão do delírio é o Poder… o dinheiro. Por isso, a Justiça, neste filme rodado em estúdio, é um vetor espectral, um eco do Além num mundo carnal onde a fortuna financeira é um demiurgo que (quase) tudo pode. Nesse hiato… nesse “quase”, advérbio já usado pela realizadora no passado… a redenção do povo (do pobre) é um mito. Mas muitos mitos têm o seu Panteão particular. A pobreza da América Latina também tem o seu.

Radicada no Brasil desde a década de 1950, a realizadora assumiu o português como o seu veio mais perene de expressão, ainda que tenha filmado Sweet Hunters (1969), com Sterling Hayden, respeitando o inglês. A ligação à Flor do Lácio não a impediu de fundar um istmo artístico com o espanhol nas suas adaptações de Gabriel García Márquez, de onde se destacam o magistral Erêndira (1983) e Veneno da Madrugada (2005), thriller crepuscular erguido sobre um lamaçal encharcado de chuva.

Os títulos mais “pé no chão” do passado, como Os Cafajestes (1962), foram soterrados, a partir de Os Deuses e os Mortos (1970) (nomeado ao Urso de Ouro), por uma mistura particular de fábula com “digressionismo”, rompendo em absoluto com a certeza de que a perceção sensível é única e indiscutível. A razão é sempre fraturada em Ruy. Até a razão sórdida da corrupção, alvo de A Fúria, realizada em parceria com Luciana Mazzotti. Argumentista de extremo vigor, ela equilibra a modulação da palavra na espasmódica forma de narrar da sua parceira.

A convulsiva montagem de Mair Tavares, Daniel Garcia e Renato Vallone apara o poliedro que Ruy Guerra esculpiu ao retomar uma saga de outrora. A produção pavimenta-se sob o ímpeto vingador de personagem Mário, ex-soldado e operário, introduzida em Os Fuzis (1964) e retomada em A Queda (1978), díptico distinguido com dois Ursos de Prata (prémios do júri) em Berlim. Esta personagem foi outrora interpretada por Nelson Xavier (falecido em 2017) e, agora, ganha corpo em Ricardo Blat, numa composição dionisíaca. Blat faz dela uma encarnação do desterro lusófono, na fala, e uma tradução do desencaixe ético dos nossos tempos. A sua ética parece não caber na vida terrena. A ordenança que impunha nos tempos de farda revelou-se uma farsa (face ao desafio da reforma agrária), e a determinação do seu brio laboral foi afogada em barro no épico marxista do final dos anos 1970.

Filmado no Polo do Audiovisual de Jacarepaguá, A Fúria aparenta ser uma metáfora do Brasil pós-golpe de 2016, que elegeu Jair Bolsonaro, mas carrega também muito do bastidor do golpe de 1964, assim como resgata outras ressacas políticas da sua pátria. Nesse contexto, este thriller espiritual inscreve-se como um objeto plástico capaz de desafiar a concretude do real e do próprio realismo, assumindo um encapsulamento quase teatral do plano, próximo de sequências-planos. Um perfume de Manoel de Oliveira, de O Princípio da Incerteza (2002), faz-se evocar no seu desapego às convenções, num antinaturalismo que encontra eixo lírico na banda sonora de Plínio Profeta. O uso de video mapping permite a construção de cenários e geografias mutáveis, algo que remete, em parte, para Sin City (2005), mas com uma arquitetura de brasilidade cromática. Este universo encantatório de Ruy jamais abdica do distanciamento (muito brechtiano) na sua forma de desafiar retóricas.

Personagem Mário morreu, mas é ressuscitada por rituais indígenas e regressa para ajustar contas com dois poderosos, já envelhecidos, que a traíram e arrefeceram o “sonho brasileiro” com o balde de água fria da desesperança. De um lado, a personagem ex-sogro, o empresário Salatiel (Lima Duarte, em grande forma), magnata da construção civil; do outro, a personagem político Feijó, candidata à presidência da Câmara, interpretada por Daniel Filho em estado de graça. É a atuação mais inflamável desse astro e realizador de sucessos.

Renascida, mas desprovida de poderes, personagem Mário surge como um corpo deslocado, desterritorializado, cuja ira estrutura uma narrativa de forte carga poética. Acolhida pela personagem indígena Palavra (Urutau Guajajara), conta ainda com três aliadas — três valquírias: a personagem deputada Petra Machado (Grace Passô), a personagem líder paramilitar Monalisa (Lux Nègre, em vibrante composição) e a personagem Laura (Simone Spoladore), neta de Salatiel, figura de contornos que roçam o mitológico. Será ela o combustível para que Mário creia que, mesmo sem redenção, há que lutar. É a luta que move um povo.

Este exército de mulheres e uma “desmorta” clamam por escuta. Esse clamor não é um delírio utópico, nem é moldado por Ruy sob tecidos nostálgicos do Cinema Novo, movimento do qual foi signatário. A Fúria é, antes de tudo, um grito lúdico de alerta, realizado com mestria invejável por um titã, em fricção criativa com o talento de Mazzotti.

Aos 94 anos, Ruy Guerra não cabe em caixinhas. O seu A Fúria liberta-nos de algoritmos.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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