Ator que frequentemente participou no cinema de Michael Haneke (A Pianista, O Tempo do Lobo, Laço Branco), Markus Schleinzer estreou-se na realização com o poderoso Michael em 2011, uma história que abanou Cannes através da história de um agente de seguros aparentemente com uma vida mundana mas que esconde um tenebroso segredo. Ele mantém sequestrado uma criança de 10 anos na sua casa. . Depois disso, ele assinou Angelo, uma obra baseada em factos verídicos e que conta a história de um africano nascido no século XVIII que é transportado para a Europa com 10 anos.

Tal como o seu antecessor, Angelo analisava a (des)humanidade e como a raça aristocrática branca se considerava superior, usando o pequeno Angelo como um animal exótico que através da aprendizagem [flauta, por exemplo] “se iria aproximar mais dos humanos“. Neste filme, ele pescou diretamente influências em Barry Lyndon de Kubrick para apresentar um trabalho fulminante, politicamente pertinente e formalmente impecável. Todos esses adjetivos repetem-se em Rose, estreado na Berlinale na competição ao Urso de Ouro com Sandra Huller com uma interpretação absolutamente notável.

Aqui, o austríaco cita visualmente A Paixão de Joana d’Arc (1928), de Carl Theodor Dreyer, num olhar ao privilégio de género. Essa violência sente-se em cada plano, em cada pulsação da protagonista, designada mulher à nascença, mas que vive como um homem, um senhor no seu reino que se junta a uma comunidade e acaba esmagada pelas normas sociais.

Há mais liberdade nas calças”, afirma ela a certa altura, numa referência obvia ao patriarcado, carregando no corpo — e sobretudo no rosto — as marcas de ser uma veterana da Guerra dos Trinta Anos: uma cicatriz de bala na face. A isso, soma-se um documento que comprova a herança de uma quinta abandonada, onde se instala na Prússia do pós-guerra.

Filmado a preto e branco de luminosidade contida que dá um ambiente de contínua nebulosidade do ambiente onde se insere, e com uma direção artística austera, Rose constrói-se nos silêncios, no rosto fechado e na coragem silenciosa da protagonista. Mesmo quando um urso ameaça a aldeia, ou quando a sua transgressão se torna demasiado visível, o perigo maior permanece o mesmo, a ordem social que não tolera desvios ou exceções.

Huller é uma força demolidora no papel de uma mulher reprimida que se ajusta na contenção, pelo menos até surgir a inevitabilidade de levantar a voz para se defender. De pouco lhe vale, pois o seu destino está traçado.

E com este trabalho, onde não falta sequer uma discreta pitada de humor, Markus Schleinzer confirma-se como um dos nomes mais interessantes do cinema austríaco, preservando uma sobriedade formal e uma coerência temática que atravessam toda a sua filmografia, sempre atenta às estruturas de poder, à violência silenciosa e às fissuras da condição humana.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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