Favorito a múltiplos prémios em Havana, em especial à láurea de melhor atriz, para Regina Casé, Três Verões vai tentar a sua sorte na Première Brasil do Festival do Rio neste sábado, com moral em alta após a boa acolhida que teve em Toronto (TIFF), em setembro.
A direção é de Sandra Kogut, que encantou a Quinzena de Cannes de 2007 com Mutum e atraiu críticas apaixonadas no Canadá, nas demais Américas e na Europa com Campo Grande. A exibição da sua nova longa-metragem, na batalha pelo troféu Redentor, vai ser neste sábado, às 21h40, no Estação Net Gávea, cuja grande tela vai ganhar um colorido esmaecido, de um realismo seco, na fotografia de Ivo Lopes Araújo.
Na trama, estamos na estação do sol, do calor: a cada verão, entre Natal e Ano Novo, o casal Marta (Gisele Fróes) e Edgar (Otávio Müller, arrebatador) recebe amigos e família na sua mansão espetacular à beira-mar, apoiados no empenho de uma fiel empregada, a governanta Madá (Regina, em estado de graça). Em 2015, tudo parece ir bem, mas, em 2016, a mesma festa é cancelada. Há ecos de corrupção no ar. O patriarca, vivido pelo veterano Rogério Fróes, está cada vez mais debilitado, mas sofre com a situação do filho, que parece encalacrado com a Justiça. Mas o que é que, de fatco, acontece com aqueles que gravitam em torno dos ricos anfitriões? Essa é a questão que move o filme e a vida de Madá.
Nesta entrevista ao C7nema, Sandra faz um balanço de suas escolhas estéticas e do seu recorte político acerca do Brasil dos dias atuais.
Madá é um satélite de um planeta que parece fora de órbita, o Brasil. Mas o quanto de equilíbrio (afetivo) essa mulher, essa governanta, associada a uma ideia de “serva feliz” pelos seus patrões, essa mulher perdeu no contágio dos desajustes sociais do seu trabalho?
Madá é um personagem entre dois mundos. Ela é empregada dos patrões mas é a chefe dos empregados. Nasceu num endereço que a destinou à falta de oportunidades, mas é super-inteligente, talentosa, despachada e capaz de desenrascar. É um tipo de pessoa que todos nós conhecemos, vê muito por aí, principalmente no Brasil, onde a vida é tão dura e exigente. Não acho que ela seja “serva feliz”. Ela não é submissa, não leva desaforo para casa. E principalmente: não perdeu a humanidade.
Que espaço existe para a sororidade na relação entre mulheres de classes diferentes como Madá e Marta?
Isso pode ser uma ideia para um outro filme, bem interessante… O Três Verões não mergulha nisso. Esse espaço é bem apertado, para dizer no mínimo.
O quanto a parceria com Ivo Lopes Araújo, vinda de Campo Grande, caminha para diante, para outros vetores de investigação visual, nesta nova colaboração?
Parceria é a palavra certa. Fizemos esse filme em pouquíssimo tempo, sem dinheiro, sem tempo para preparar direito, em condições muito suadas. Mas fizemos com uma energia incrível. Foi um set de muitas alegrias, cheio de emoções. Todo mundo mergulhou. As parcerias falaram alto. Foi justamente porque nós já nos conheciamos, já tinhamos o nosso terreno comum, já tinha feito Campo Grande, que conseguimos fazer esse filme desse jeito. Mesmo que a câmara aqui seja outra coisa, o universo outro. Mas a nossa linguagem comum é um tesouro, e está sempre se expandindo. O Ivo é um génio. Super-talentoso, sensível, parceiro. Adoro trabalhar com ele. As parcerias foram muitas. Marcos Pedroso, diretor de arte, foi a mesma coisa. Regina então… são 30 anos de parceria e amizade. O filme é fruto de tudo isso. Todo mundo fora da sua zona de conforto, mas de mãos dadas.

O transbordamento de Mutum e Campo Grande, na perceção social de um certo desamparo, associado a uma certa miopia de mundo. O seu elenco, com Regina (hoje no ar, na TV, na novela Amor de Mãe), Otávio Müller, Carla Ribas, Charles Fricks, Gisele e Rogério Fróes (pai e filha na vida real) são atores com berço no teatro, que parecem alargar esse desamparo e essa visão estropiada. Como foi a direção deles nesse caminho (de autora)?
Olha, esse foi o meu primeiro filme onde a maioria dos atores eram profissionais. Então foi tudo novo, inventar um jeito novo de fazer, em condições diferentes. Cada filme tem o seu jeito de ser feito, que é só daquele filme, e nós só desvendamos mesmo esse mistério no processo. Eu adorei trabalhar com esses atores. Vários eu já conhecia (muitos estão em Campo Grande), outros eu já namorava de longe. Tive realmente muito prazer em trabalhar com eles. Nos meus filmes anteriores deixava os atores bem mais no escuro. Não liam o guião, não tinha plano de filmagem. Eram outras ferramentas. Dessa vez fiz tudo diferente, e recebi em troca tanta generosidade, tanta entrega. Eu me encantei com eles todos os dias. Choramos e rimos muito nesse set.

