São pessoas como Duncan Kenworthy que, apesar de passarem despercebidas nos créditos de um filme, investem, organizam e, caso recebam um Óscar de Melhor Filme, sobem ao palco.
Produtor de carreira ímpar, passou da versão árabe da Rua Sésamo a As Viagens de Gulliver (com segmentos filmados em Lisboa), e assinou clássicos como Quatro Casamentos e um Funeral e Notting Hill. Para além disso, é Presidente da Comissão de Cinema da British Academy of Film and Television Arts (BAFTA).
De passagem por Lisboa para apresentar a sua nova produção (Love Actually / O Amor Acontece), Duncan falou sobre a ideia, a produção e os desafios de um filme com um elenco de exceção e dez histórias de amor paralelas. Pelo caminho, ainda deu a sua opinião sobre os screeners, a pirataria e revelou pistas sobre futuros projetos.
Está a gostar de estar em Portugal?
Adoro Portugal, absolutamente amo Lisboa. Já não vinha cá há anos. Há uma década, costumava vir várias vezes. Adoro o ambiente, sinto uma ligação com as pessoas. Em 1995 trouxe cá a produção de Gulliver Travels e filmámos em Lisboa. Voltar agora é como rever um amigo que não via há muito tempo. Ainda por cima, com um filme, é como um presente.
De que trata Love Actually? Qual é a essência do filme?
De certa forma, a moral está logo no início. O título original era Love actually is all around, mas achei demasiado longo e sentimental. Ficou Love Actually. A ideia é simples: o amor realmente está em todo o lado. É maravilhoso ver o otimismo do Richard [Curtis]. Algumas pessoas poderão achar cínico, pensar que tenta manipular, mas não é. É a visão genuína dele e estou feliz por partilhar essa filosofia.
Acha que o 11 de Setembro influenciou essa visão positiva?
Sim, acho que sim. No início resisti à ideia de que o mundo tinha mudado, mas agora vejo que, em vários aspetos, mudou. As pessoas ganharam consciência de que não existe “para sempre”, e isso também é importante para o amor. Temos a escolha: amar ou não, avançar ou ficar parados. Hoje, penso que há mais disposição em simplesmente tentar.
Depois de Quatro Casamentos e Notting Hill, sente pressão com as expectativas?
Tentamos não pensar nisso. Com Notting Hill só percebemos as comparações duas semanas antes da estreia. Desta vez, já estávamos preparados. Mas se pensássemos muito nisso, ficávamos paralisados. Quando começámos Love Actually, achávamos até que não seria um grande sucesso. É um filme difícil. Juntar dez histórias de amor pode ser impossível. Mas não nos preocupámos com a hipótese de falhar.
É um projeto ambicioso…
Muito. Durante muito tempo pensei que não ia resultar, sobretudo na pós-produção, ao tentar unir todas as peças. Cada história acabou por acontecer num sítio diferente do guião, foi como jogar xadrez em três dimensões: se mudávamos uma, todas as outras tinham de se ajustar. Mas, no fim, sei que o público vai reconhecer as mesmas qualidades dos filmes anteriores, a mesma visão otimista do mundo. Uns vão preferir Quatro Casamentos, outros Love Actually. Desde que retirem algo do filme, fico feliz.
Como é trabalhar com Richard Curtis?
Não trabalharia com ele se não gostasse. É brilhante, inteligente, divertido. Trabalhámos juntos diariamente durante três anos, sempre lado a lado. Este filme foi diferente porque não havia um realizador externo — éramos só nós os dois a tomar decisões. Agora que ele realizou, quis mais distância em certas escolhas, o que faz sentido. Mas apreciei a experiência tanto quanto as anteriores.
Na altura de Notting Hill, decidiram que um de vocês realizaria o próximo. Este foi o Richard. E o Duncan? Realiza o próximo?
(risos) Não sei se o Richard aceitaria. Gosto do lado criativo do meu trabalho como produtor e, às vezes, sinto-me quase como um segundo realizador. Mas se um produtor realiza, deixa de ser apenas produtor. Não se pode voltar atrás. É um trabalho muito exigente. Por enquanto, gosto da forma como estou.
Foi difícil juntar um elenco tão grande?
Curiosamente, foi mais fácil. As exigências eram curtas, cerca de duas semanas de trabalho para cada ator, não dez. Isso facilitou que aceitassem. O complicado foi coordenar as agendas, e tivemos de gastar mais em viagens (risos).
A personagem portuguesa estava prevista desde o início ou surgiu com o casting de Lúcia Moniz?
Desde o início. Baseia-se numa experiência do Richard: quando alugou uma casa em França, a rapariga que tratava da casa era portuguesa. Ele disse-me que era muito bonita, mas não conseguiam comunicar. Foi real, mas ele não se apaixonou por ela (risos). Originalmente, essa história e a de Hugh Grant seriam dois filmes separados, mas decidimos juntá-las e acrescentar mais.
Colin Firth teve aulas de português?
Sim, e foi inteligente da parte dele. A Lúcia ajudou muito. No final, quando fala inglês, a cena teve de ser dobrada para várias línguas — italiano, francês, espanhol, alemão e até húngaro. A Lúcia esteve excecional.
Como reagiria se encontrasse Love Actually disponível para download na internet?
Ficaria chocado e chateado. As pessoas acham que é privado, mas não é. Fazer um filme custa dezenas de milhões e precisamos de retorno para continuar a produzir. Não aprovo a pirataria.
Concorda com a decisão da MPAA de banir os screeners?
Não. Falei até com Jack Valenti sobre isso. Os screeners não são a origem da pirataria. Nos BAFTA somos muito cuidadosos e nunca houve fuga. A maior parte vem de câmaras em cinemas ou de profissionais ligados à projeção. Esta decisão da MPAA pareceu-me precipitada e mal organizada.
E agora, qual será o próximo projeto?
O Richard vai passar o próximo ano a escrever.
Sobre o amor outra vez?
Acho que não. À medida que envelhece e com o nascimento do quarto filho, a visão dele também muda. Os primeiros filmes eram sobre apaixonar-se; este, sobre estar apaixonado. O próximo poderá ser mais sério. Ele sempre quis fazer um filme sobre os pais. Seria fantástico.

