Na experiência filosófica de Frank Jackson, “O que a Mary Não Sabia“, Mary é uma jovem que aprendeu tudo o que há para saber sobre as propriedades físicas das cores, mas sempre viveu num ambiente a preto e branco. Ela está confinada a uma sala a preto e branco, é educada através de livros a preto e branco e através de palestras transmitidas pela televisão a preto e branco. Desta forma, ela aprende  tudo o que há para saber sobre a natureza física do mundo. A questão que Jackson coloca é se ela adquire novos conhecimentos quando finalmente experimenta as cores pela primeira vez.

Quase quarenta anos depois de Frank Jackson colocar a questão em 1986, a grega Konstantina Kotzamani [“Washingtonia” (Berlinale, 2014), “Yellow Fieber” (Locarno, 2015), “Limbo” (Semana da Crítica em Cannes, 2016), e “Electric Swan” (Veneza, 2019)] apresenta as cores a uma nova Mary através de um cruzeiro turístico gigantesco, o Neoromantica, que atravessa o Mediterrâneo. As cores espampanantes e saturadas, além de um design de produção impecável e um conjunto de temas musicais que aviltam a atmosfera de conhecimento de um novo mundo e a sua estranhez, mostram um novo mundo a esta adolescente sueca que viaja com os pais e um irmão mais novo até às ilhas gregas. Numa ida à cozinha para pedir um pouco de “salame” para o espaguete do pai que se queixa constantemente, a jovem fica ofuscada e atordoada com um rapaz mais velho que a serve. Embora ela não fale francês como o rapaz, o amor ajuda a criar uma ligação entre os dois que vai servir naquilo que o júri do Curtas Vila do Conde, que o premiou, descreveu como um retrato da “a vulnerabilidade emocional do desejo adolescente (…) e  intensidade do primeiro amor e do desgosto amoroso com profundidade e ternura”. 

À beira de se tornar uma longa-metragem já que possui uns robustos 54 minutos, “What Mary Didn’t Know” funde mitologia grega e as Mil e Uma Noites, num exercício de aprendizagem de uma jovem que descobre o amor – um genuíno progresso epistémico após a libertação. E mesmo que a dor do desgosto amoroso pareça insuportável, como a cena final evoca, com Mary na Acrópole de Atenas a questionar uma avestruz sobre se o amor irá sempre doer, o aprender está lá. E todos sabemos a resposta à sua questão da jovem.

Destaque para Tora Sandström no papel de Mary, que por entre os reformados que vagueiam pelo cruzeiro, além dos seus pais enfadados por serem tratados como turistas, carrega em si uma força e uma luz que chega até nós como um espelho das nossas próprias adolescências.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
what-mary-didnt-know-o-amor-e-um-cruzeiro“What Mary Didn’t Know” funde mitologia grega e as Mil e Uma Noites, num exercício de aprendizagem de uma jovem que descobre o amor