Explorando temas tabus no Japão como a resistência cultural à doação de órgãos e os milhares de desaparecimentos anuais, a nipónica Naomi Kawase continua em busca de autenticidade num cinema que tanto se quer intimista como relevante socialmente.
Iniciou o seu percurso nos anos 90 no registo documental, com Embracing (1992) e a chamada “Trilogia da Avó” (Katatsumori, 1994; See the Heaven, 1995; Sun on the Horizon, 1996) a darem o mote para uma carreira onde a ausência, perda, memória e conexão se tornaram marcas identitárias. Transitou com sucesso para a ficção com Suzaku (1997), vencedor da Caméra d’Or em Cannes.
O Festival de Cannes foi, aliás, o grande palco para as suas estreias, com filmes como Shara (2003), The Mourning Forest (2007), Hanezu (2011), Still the Water (A Quietude da Água, 2014), e Vision (2017) na competição pela Palma de Ouro, enquanto An (Uma Pastelaria em Tóquio, 2015) concorreu na Un Certain Regard. Já True Mothers (As Verdadeiras Mães, 2020), embora selecionado para Cannes, estreou mundialmente em Toronto, devido ao cancelamento da edição francesa pela pandemia — realizou-se apenas uma versão pocket.
Em 2025, Kawase apresentou em Locarno o seu mais recente filme, L’Illusion de Yakushima, um drama protagonizado por Vicky Krieps, no papel de Corry, uma especialista francesa em transplantes pediátricos que chega ao Japão para um serviço hospitalar em Kobe. Enquanto uma camada do filme aborda o tabu japonês em torno dos transplantes, a outra — centrada no romance entre Corry e Jin (Kanichiro) e no desaparecimento deste último— leva Kawase a um registo onde a natureza, o amor, a paixão e a ausência se emaranham. Também esta vertente dialoga com outra triste realidade social, a dos desaparecimentos – que a realizadora associa a uma forte pressão social num país que valoriza a homogeneidade: quem se sente fora da norma muitas vezes escolhe desaparecer.
Ao optar por uma montagem não linear, onde passado e presente se entrelaçam, revelando trajetos formativos, Naomi Kawase não só constrói uma forte empatia com Corry e com a sua perspetiva, como imprime ao filme um caráter profundamente expositivo, colocando em destaque questões que pretende impulsionar um sério debate público no Japão. Por isso mesmo, com os seus habituais tiques herdados do cinema documental, ela convoca uma série de profissionais de saúde e, sem guião, coloca-os a falar com a sua personagem ficcional, Corry, mostrando como a questão dos transplantes encontra grandes barreiras no país devido à própria interpretação sobre a morte — ou seja, no Japão a morte cerebral não é efetivamente morte, pois enquanto o corpo estiver quente e o coração bater, a vida existe e deve ser preservada. Na questão dos desaparecimentos, ela faz o mesmo, colocando várias figuras a pôr-nos a par da situação no Japão e da lei em relação à busca de desaparecidos, alcançando uma nova força dramática (e autenticidade) quando coloca Corry em diálogo com os pais de Jin.
É assim, através do olhar de uma estrangeira, que Kawase volta a confrontar na sua cinematografia as tradições do seu país, em pleno choque com a modernidade. E fá-lo sem perder o foco, como uma luz que caminha pelas trevas da herança passada, na observação às memórias que persistem, às perdas que marcam, aos laços que nos unem e à natureza que acolhe.



















