Mais do que seguir as obras que acabarão por chegar certamente aos cinemas de forma comercial, o mais interessante de um Festival de Cinema Internacional é encontrar «pérolas» que só aí temos acesso. Presente no Festival de Cinema de Toronto, o filme «Color of The Ocean», de Maggie Peren, é uma das obras que nos chamou a atenção, até porque aborda um problema bastante contemporâneo: a imigração e a forma como a Europa lida com o problema.
Porém, e se esta é base central da trama, o filme usa metaforicamente as relações familiares e quotidianas para mostrar a ligação entre a perda da humanidade e o cada vez maior individualismo do homem, demasiado centrado em si.
José (Alex Gonzalez) é um polícia fronteiriço nas ilhas Canárias que constantemente tem de lidar com inúmeros imigrantes ilegais – e «com as suas mentiras» (como ele diz a uma colega a certa altura). Um dia chega à ilha mais um barco repleto de imigrantes ilegais profundamente desidratados, tendo mesmo alguns encontrado a morte durante percurso. Quem acompanha essa chegada, enquanto passa as suas férias na praia, é a turista alemã Nathalie (Sabine Timoteo), que prontamente está disposta a ajudar. Rapidamente ela afeiçoa-se ao drama de Zola (Huber Koundé) e do seu filho, Mamadou (Dami Adeeri), dois homens perdidos numa terra desconhecida à procura de uma vida melhor. Paralelamente a esta história, temos um subplot mais pessoal de José, cuja irmã toxicodependente o deixa impotente – na forma de como irá lidar com o assunto.
Todos estes argumentos criam uma obra muito dramática, mas que acima de tudo dá que pensar.
O c7nema teve a oportunidade falar com Maggie Peren, a cineasta alemã responsável «Color of The Ocean», que nos explicou o grande objectivo do filme e ainda alguns detalhes sobre a sua concretização.
Como nasceu a ideia para «Color of The Ocean»?
Em 2006 tive acesso a um relatório sobre subsídios europeus a vegetais e frutas exportadas para África que estavam a arruinar os mercados locais. Aí começou a minha pesquisa e também o processo de escrever o argumento.
Como foi casting para esta obra?
Na Alemanha tive a ajuda da An Dorthe Branker, uma fantástica cineasta com os seus sessenta anos e que já fez inúmeros filmes alemães.
Já em Espanha tive a ajuda de uma das minhas melhores amigas, Barbie Heusinger. Ela trabalha para filmes alemães, mas tem plenos conhecimentos na área dos actores locais. Depois foram muitas coisas a ajudarem, pois as pessoas que gostavam da temática queriam fazer parte do filme. Isso ajudou-me. E tive muita sorte porque o Huber Koundé leu o guião e disse sim dois dias depois.
Normalmente, mais desemprego trás sempre mais xenofobia. Acha que a actual crise económica vai fazer com que os governos implementem mais leis contra a imigração?
Não tenho bem a certeza disso. Há um ano atrás eu diria SIM, mas hoje não… Basta olhar para os casos da Tunisia e da Libia. Muitas coisas estão a mudar. Eu espero que a Europa possa ajudar as pessoas nos seus países de origem. Ninguém quer sair de casa. Nós não precisamos de novas leis, mas de entender e ter sensibilidade para a situação. Manter estes homens e mulheres onde são precisos, ou seja, nos seus países de origem. E tenho a sensação que a Europa tenta encontrar mais e melhores maneiras de executar isso.
Para além de ser um filme que lida com emigração, há outros problemas sérios em jogo, como a dependência das drogas e as famílias desintegradas. Como lidou com todas estas temáticas.
Não vejo o filme como algo sobre drogas. A irmã do José é totalmente dependente e o irmão sente-se impotente em ajudar. Era isso que queria mostrar e essa a base do meu filme. O nosso mundo é muito complicado e complexo, mas ainda assim – e como o José diz no final – é importante parar e ajudar. É preciso estar lá, independentemente das dificuldades que isso traga.
Na primeira cena do filme, em que a irmã de José bate-lhe à porta, é no fundo a Europa e a sua irmã desesperada (África). E nós fingimos (como ele) que não estamos em casa e não os ouvimos.
Qual a importância do Festival de Toronto para o seu filme?
O Festival de Cinema de Toronto é fantástico e estou muito feliz de ter sido convidada. Só espero que as pessoas venham e vejam o filme.
Tenho falado nos últimos tempos com alguns realizadores alemães e quase todos afirma que cada vez é mais difícil encontrar financiamento e colocar um projecto em andamento. Como é ser uma cineasta nos tempos que correm?
É muito mais fácil teres financiamento se realizares uma comédia. Esta obra [que é um drama] foi particularmente difícil de encontrar quem a financiasse. Quanto ao ser cineasta hoje em dia, temos de ser pacientes e muito fortes. E temos de adorar o cinema. Eu adoro filmes e narrativas.
Que projectos tem para o futuro?
Há um projecto em que estou a trabalhar há bastante tempo. É uma história que se passa logo após a 2ª Guerra Mundial na Alemanha Oriental. No filme seguimos um grupo de jovens que descobre a democracia. Quando se apaixonam pela sua nova liberdade perdem-na para um novo ditador, na forma de Estaline e da nova «Republica Democrata alemã».

