É difícil não pensar em filmes como Delphine et Carole, insoumuses quando falamos de Carla Lonzi, dentro e fuori dal mondo. No documentário de Callisto McNulty, Delphine Seyrig e Carole Roussopoulos surgiam não apenas como duas figuras fundamentais das lutas feministas dos anos 1970, mas como mulheres que utilizaram o cinema, o vídeo e a própria exposição pública para enfrentar estruturas patriarcais que atravessavam tanto a sociedade como o meio artístico.
No filme de Francesca Archibugi, o impulso é semelhante, no desejo de recuperar uma mulher decisiva do feminismo europeu e colocá-la novamente em circulação no presente. Em comum, há também o facto de ambos os filmes nascerem do seio da própria “família”: McNulty era neta de Roussopoulos, enquanto Archibugi é companheira de Battista Lena, músico, compositor e filho de Carla Lonzi.
Mas, se Delphine et Carole, insoumuses encontrava a sua força na cumplicidade e militância de duas mulheres que utilizaram a imagem e a câmara como armas, Archibugi aproxima-se de uma figura cuja relação com a própria ideia de representação era muito mais complexa.
Nascida em 1931, Lonzi começou por se afirmar como crítica de arte, mas rompeu com esse meio ao questionar a posição de autoridade ocupada pelo crítico e a própria hierarquia implícita no ato de interpretar o trabalho de um artista. Fundadora, juntamente com Carla Accardi e Elvira Banotti, do coletivo Rivolta Femminile, em 1970, tornou-se uma das vozes centrais do feminismo italiano, ainda que nos livros de história a sua presença seja parca, mesmo que textos como Sputiamo su Hegel, La donna clitoridea e la donna vaginale e Taci, anzi parla a tenham colocado no centro da discussão sobre a autonomia feminina, a sexualidade e a recusa dos modelos patriarcais tradicionais.
Mas ainda antes de se debruçar em Lonzi, Archibuci arranca o documentario com uma espérie de ponto da situação, mostrando a existência e a força do movimento feminista. Por isso mesmo, o filme começa com imagens televisivas dos anos 1970, em que várias pessoas, incluindo mulheres, descrevem as feministas como radicais e até perigosas, partindo daí para chegar a Lonzi. É um arranque simples, mas certeiro, pois começa com o sentimento de uma época para começar a desmontar uma imagem rígida da mulher retratada, olhando para as suas contradições e para fragilidades que existiam por detrás da figura pública.
Recorrendo a imagens de arquivo, fotografias, gravações áudio e testemunhos de familiares, amigos e investigadores, Archibugi oscila entre a memória íntima e a reconstrução histórica, destacando-se entre os entrevistados os nomes de Nanni Moretti, Suzanne Santoro, Giulia Siviero e das historiadoras e investigadoras Laura Iamurri e Giovanna Zapperi, além do filho de Lonzi.
O resultado dessa mecânica de desconstrução recusa separar completamente a teórica feminista da mulher, da mãe e da pensadora, oferecendo ao espectador um ensaio sobre uma figura marcada tanto pela força das suas ideias como pelas contradições da própria experiência. E é precisamente aí que o filme de Archibugi se revela profundamente humano, capaz de prender a atenção do início ao fim e de despertar a vontade de conhecer melhor Carla Lonzi para lá do documentário.

