À terceira longa-metragem, o realizador iraniano Ali Ahmadzadeh volta a desafiar convenções ao imiscuir-se secretamente nas ruas de Teerão para capturar as almas perdidas que não fazem parte do cartão postal da República Islâmica. Assim, pelo caminho deste “Critical Zone“, vencedor do Leopardo de Ouro do Festival de Locarno, vamos passar por traficantes e consumidores frequentes de droga, prostitutas transexuais, comissários de bordo contrabandistas, jovens desertores e mães conservadoras.
Nesse processo, e desde o primeiro momento em que vemos uma ambulância servir de mula de transporte de estupefacientes para o traficante que vamos cuidadosamente seguir, percebermos o fulgor transgressivo de um autor (realizador de Kami’s Party e Atomic Herat) na sua viagem a um submundo que já tínhamos dado uma pequena mirada no gigante “A Lei de Teerão” de Saeed Roustayi.
No centro desta obra, com tanto de narrativo como sensorial, está Amir (Amir Pousti), um traficante que percorre as ruas da cidade, guiado pela voz do seu GPS, para distribuir droga, aconchego e “a razão” por entre diversas figuras nas sombras com quem se vai cruzando.
Também ele fustigado pelos seus próprios demónios, Amir é fisicamente robusto com uma longa e espessa barba que não só impõe respeito para a “profissão ” que tem, como lhe atribui uma dimensão messiânica, como que servindo uma nação de marginalizados, um bando de “foras da lei’, empurrados para debaixo do vistoso “tapete persa” ilusório na sua moralidade. Em suma, sobras desumanizadas e arrastadas por uma moral imposta à lei da força, num país frequentemente abalado por sismos sociais que ameaçam uma revolução iminente.
E talvez um dos momentos mais espetaculares e pavorosos do ano esteja mesmo neste filme, onde ao êxtase carregado de carnalidade de Amir e da sua amiga comissária de bordo, um grupo miliciano responde com um ataque bárbaro. Os gritos vindos dessa cena ecoam na mente do espectador até bem depois do filme acabar, conseguido-se assim uma das cenas psicologicamente mais intensas do cinema moderno.
A forma muitas vezes documental, embutida numa estrutura e forma de ficção profunda e óbvia, atribuem uma dimensao realista impactante e corrosiva a este “Critical Zone“, enquanto, em paralelo, elementos do “extra-ordinário” adicionam um toque surreal e absurdista que coloca o filme no reino da transcendência entre o real, o imaginado e projetado.
No final, “Critical Zone” é mais que um grande filme: é um grito angustiante de uma sociedade amedrontada e esmagada por imposições políticas, religiosas e morais que apenas e só permitem aos mesmos de se manter no poder indefinidamente.



















