Otar Iosseliani surpreendeu o público e o próprio diretor do Festival de Locarno, Carlo Chatrian, ao fazer duras criticas ao Festival de Cannes e ao Festival de Veneza durante o discurso de agradecimento pelo Prémio de Carreira que lhe foi atribuído pelo certame suiço.
Segundo Iosseliani, e apesar de admitir o bom trabalho de Gilles Jacob, «há muito que o Festival de Cannes vendeu a sua alma aos grandes estúdios». No que diz respeito a Veneza, o cineasta relembrou que o certame foi fundado pelo fascista [Benito] Mussolini e «que para lá [esses tempos] caminha novamente». Já sobre o Festival de Locarno, Iosseliani afirma que este é o único que permanece focado no cinema de autor e nas relexões inteletuais: «Apenas Locarno está disposto a arriscar para defender os filmes artísticos».
Recordamos que Iosseliani é o mais conhecido realizador de cinema da Geórgia. Porém, e quando a censura no seu país natal lhe interrompeu a carreira, o cineasta foi viver para França, onde permanece há cerca de 30 anos. Na Georgia ainda realizou algumas longas-metragens e documentários como Outono (1966), There Was Once a Singing Blackbird (1970) ou Pastoral (1976), mas todos foram proibidos de estrear.
Já em França continuou a sua carreira, tendo vencido o Grande Prémio Especial do Júri no Festival de Veneza em 1984 com Os Favoritos da Lua, em 1989 por E Fez-se Luz, e em 1996 por Bandidos. Já no Festival de Berlim, o cineasta recebeu, em 2002, o Leão de Prata de Melhor Realizador por Segunda de Manhã. A Caça às Borboletas (1992), Adeus, Terra Firme (1999), Jardins no Outono (2006) e Chantrapas (2010) são outros filmes que marcam a sua carreira.
Para Carlo Chatrian, dar a Iosseliani o Pardo alla carriera está na linha da missão do festival, que é «dar espaço a grandes vozes que caracterizam o cinema contemporâneo». Para ele, «os filmes de Iosseliani constituem uma ode à liberdade. Liberdade de expressão que é transposta numa linguagem cinematografica desprovida de qualquer rétorica» e com uma abordagem narrativa que prefere agarrar-se ao intimo das personagens em vez de depender da ação. «Tal como as suas personagens, Iosseliani mostra a riqueza da sua cultura sem hesitar em cunhar [os seus filmes] com a sua sublime ironia».

