“A grande festa dos nossos tempos é resistir”: DocLisboa 2025 apresenta programação  

O Doclisboa decorre de 16 a 26 de outubro

(Fotos: Divulgação)

Apresentado hoje à imprensa, o DocLisboa regressa em outubro (16-26) para a sua 23.ª edição, reafirmando-se como espaço de encontro entre cinema, política e memória. No dossier que acompanha a apresentação do programa, o diretor do certame, Hélder Beja, sublinha o papel do festival como lugar de resistência e imaginação num tempo de crises sucessivas. “Aqui chegados, continuamos a acreditar na força e no papel artístico e político do cinema”, escreveu, lembrando que as circunstâncias não pedem um otimismo fácil, mas convidam a gestos de esperança.

A edição de 2025 propõe mais de 200 filmes, entre estreias e obras recuperadas, cruzando diferentes tempos, geografias e linguagens. Para Beja, o fio condutor é a necessidade de “fazer uma pausa e olhar, revisitar o que foi vivido para imaginar o porvir”. É um gesto que atravessa as competições internacional e nacional, a secção Verdes Anos dedicada a novos realizadores, a Riscos, a Da Terra à Lua, a Heart Beat e as retrospetivas, que convocam cineastas de outras épocas — como William Greaves (1926–2014)— para dialogar com a atualidade.

Na Competição Internacional, o festival demonstra o seu ecletismo e diversidade temática e formal: de Mahmoud Massad, que acompanha o declínio de uma sala em Amã como metáfora de perda e memória (Cinema Kawakeb), a Ignacio Agüero, que conversa com os pais já falecidos sobre meio século de história chilena (Letters to My Dead Parents), passando por Isabel Pagliai (Fantasy), Nate Lavey (The Strongest Lightning Strikes Not From Dark Skies) ou Fabrice Aragno (Le Lac). A programação inclui ainda a exploração da criação musical na Grécia (The Anything) e a evocação da decadência da situação na Argentina de Milei, através de um projecionista transformado em guarda-noturno (The Night Is Fading Away).

Fuck the Polis, de Rita Azevedo Gomes

Já a Competição Portuguesa apresenta Água Mãe, de Hiroatsu Suzuki e Rossana Torres, uma meditação filmada no Guadiana; Andar com Fé, curta de Duarte Coimbra, onde seguimos as memórias de um amigo a partir do encontro com uma igreja antiga; As Estações, de Maureen Fazendeiro, que combina depoimentos, imagens de arquivo, desenhos, lendas e poemas para explorar a história de uma região do Alentejo; Baía dos Tigres, de Carlos Conceição, onde a história e o mito de uma ilha fantasma na costa sudoeste de África são contados através de uma parábola distópica; Complô, de João Miller Guerra, centrado na figura do rapper e ativista crioulo Bruno “Ghoya”; Explode São Paulo, Gil, de Maria Clara Escobar, coprodução luso-brasileira sobre Gil, mulher periférica, lésbica e empregada doméstica que aspira a ser cantora; e Fuck the Polis, de Rita Azevedo Gomes, um filme que cruza mito e viagem ensaística pelas ilhas gregas, através do olhar de quatro viajantes. A seleção inclui ainda Ouro e Cinza, de Salomé Lamas; Three of Cups, de Enotea e Mário Macedo; Ku Handza, de André Guiomar; Lenha, de Manel Raga Raga; e Nova ‘78, de Aaron Brookner e Rodrigo Areias.

Na Riscos, o DocLisboa apresenta uma seleção de obras que exploram os limites da linguagem cinematográfica e a sua relação com a história e a memória. Entre os realizadores convidados, destacam-se Trương Minh Quý e Nicolas Graux, cuja colaboração se prolonga desde Porcupine e que regressam com novos trabalhos que combinam etnografia, ficção científica e auto-ficção. Também convidada foi a egípcia Hala Elkoussy, conhecida por retratar a transformação urbana do Cairo e os modos como a cidade reflete tensões sociais e políticas. O programa integra ainda títulos como Sorella di Clausura, Under the Flags, the Sun e As Muitas Mortes de Antônio Parreiras, que propõem novas formas de pensar o cinema entre o documento, a ficção e a experimentação estética. O programa A Clarividência do Fotógrafo – De 1875 a 2025 liga dois filmes contemporâneos a Gabriel Veyre e apresenta uma série de imagens, filmadas em diferentes pontos do mundo.

A secção Da Terra à Lua faz regressar autores como Ross McElwee, figura central do documentário autobiográfico norte-americano, e Želimir Žilnik, pioneiro do cinema jugoslavo de intervenção política. Junta-se ainda Shadowboxing, colaboração entre Cíntia Gil e Jean-Pierre Rehm, com três sessões inspiradas pelo filme palestiniano Two Meters of This Land, de Ahmad Natchea; bem como a presença de Lucrecia Martel, que apresenta o novo filme Nuestra Tierra, e de Laura Poitras, que mostra Cover-Up, realizado em colaboração com Mark Obenhaus. Ghost Elephants, a mais recente obra de Werner Herzog, La memoria de las mariposas, de Tatiana Huezo, e La Ligne Bleue, de Marie Dumora, reforçam o peso autoral desta secção, enquanto As Brigadas Revolucionárias na Luta Contra a Ditadura (1970-1974), de Luiz Gobern Lopes, regressa ao passado ditatorial português,

Paul, de Denis Côté

Já na Heart Beat, o foco recai sobre as artes e os seus protagonistas, com destaque para a homenagem a Robert Wilson, a David Lynch e a Luciano Berio. A secção apresenta ainda novos trabalhos de Marie Losier (The Residents) e Alison Ellwood (Boy George & Culture Club), acompanha figuras como Madonna (Becoming Madonna), Jeff Buckley (Everybody Here Wants You) e Andy Kaufman (Andy Kaufman Is Me), e traz nomes como Pippo Delbono (Bobò), Solveig Nordlund (Teatro da Cornucópia) e Joana Botelho (Última Memória). Retratados em documentário, surgem também Dimitris Papaioannou (Bull’s Heart) e João Fiadeiro (Pele Nómada), a par de Toni, My Father, de Anna Negri, Soco a Soco, de Diogo Varela Silva, e Paul, de Denis Côté. Integram ainda a programação Videoheaven, de Alex Ross Perry, In Hell with Ivo (retrato queer de Ivo Dimchev, de Kristina Nikolova) e a cópia restaurada de Robert Wilson & the CIVIL warS (1986), de Howard Brookner.

O festival prossegue ainda o trabalho de formação e reflexão sobre a indústria através do Nebulae, espaço de encontro de profissionais, e do laboratório Arché, que apoia novos projetos. Em paralelo, mantém-se o compromisso com o serviço educativo, desenvolvido em parceria com a Apordoc, para aproximar diferentes públicos do cinema documental.

Para Hélder Beja, o DocLisboa é também uma festa, mas “cientes de que a grande festa dos nossos tempos é resistir”. Num contexto marcado por guerras, ascensão de nacionalismos e crises ambientais, o cinema pode não oferecer soluções imediatas, mas é, nas suas palavras, “um lugar para pensar o mundo e pensar sobre o mundo”.

E esta “festa” que é resistir arranca com With Hasan in Gaza, do realizador palestiniano Kamal Aljafari, como filme de abertura, e encerra com A Árvore do Conhecimento, de Eugène Green, como filme de encerramento.

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