Werner Herzog e o seu “Ghost Elephants”: “Não é um filme sobre a vida selvagem”

(Fotos: Divulgação)

Celebrado ontem em Veneza com a atribuição do Leão de Ouro de Carreira, Werner Herzog apresenta hoje, fora de competição, o seu mais recente documentário, Ghost Elephants.

Com a atmosfera poética e existencial que lhe é característica, Herzog acompanha a busca quase mítica por elefantes nas terras altas enevoadas de Angola. A narrativa avança pelo olhar do Dr. Steve Boyes e dos rastreadores locais, oscilando constantemente entre o mito, o sonho e a realidade.

Não é um filme sobre a vida selvagem e não se deve esperar isso”, avisou o realizador alemão na conferência de imprensa em Veneza. “Há elefantes no filme, sim, mas apenas uns 30 segundos, filmados por Steve Boyes com o telemóvel em 4K. O essencial é a viagem: o filme trata dos sonhos e dos espíritos dos elefantes. É uma caça ao ‘elefante branco’. Tal como em Moby Dick, onde só encontramos a baleia nas últimas páginas, também aqui a jornada é mais importante do que a chegada. Uns perseguem espíritos, outros perseguem sonhos.

Boyes, investigador de vida selvagem e ornitólogo, recordou os dez anos de expedições em Angola, marcados por esforço e descobertas: “Explorámos cada rio e cada vale de mota ou bicicleta, colocámos centenas de armadilhas fotográficas e estações de escuta. Descobrimos 275 novas espécies para a ciência e, sobretudo, criámos uma ligação profunda com as comunidades locais, que nos ensinaram a proteger a terra. Estar perto de um elefante é indescritível: se respeitamos a sua presença, eles aceitam-nos, brincam à nossa volta, incluem-nos no grupo. Mas há um paradoxo: quanto mais perto estamos, mais percebemos que talvez seja melhor não os encontrar, não os fixar numa imagem. O essencial é a jornada, o sonho, a consciência de que estes animais guardam a alma selvagem do continente.”

Sobre a colaboração com Boyes, Herzog revelou que o encontro se deu através de um amigo comum e que, desde o primeiro instante, sentiu logo cumplicidade: “Não começámos a falar de cinema. Falámos de pensamento, de silêncio, de felicidade. Isso convenceu-me. Senti a música das sereias a dizer: tens de fazer este filme.

Werner Herzog

Questionado sobre a sua inclinação para retratar personagens e situações-limite, Herzog recordou a vastidão da sua obra — entre 70 e 80 filmes, além de livros — e garantiu que, apesar da diversidade, há um fio invisível que une tudo: “Todos os meus filmes partilham uma mesma visão do mundo. É isso que os torna inimitáveis. Cada realizador deve ser fiel à sua própria visão, não uma cópia de outros.

Mesmo distinguido pela sua carreira, Herzog confessou continuar a perseguir as suas próprias “baleias brancas”:
Tenho demasiados projetos (risos). Esse sempre foi o meu problema. Recordo que não há muito tempo tive dois filmes em competição na Bienal de Veneza, algo inédito. Mas não consigo concretizar todos os sonhos. Francis Ford Coppola e eu planeámos, por exemplo, um grande filme sobre a conquista do México, contado do ponto de vista dos astecas. Nunca aconteceu — era demasiado ambicioso, impossível de financiar. Mas não guardo arrependimentos. O cinema deu-me 28 filmes e sete livros num período de 20 anos. Tento apenas ser um bom artesão e fazer o meu trabalho. Isso basta.

O Festival de Veneza termina a 6 de setembro.

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