Laura Poitras: “A arte é sempre política. Não considero o nosso trabalho ativismo — é arte”

(Fotos: Divulgação)

O que me move são os problemas e sobretudo as pessoas que dizem a verdade perante o poder — como Julian Assange e Edward Snowden”, disse Laura Poitras em Veneza, hoje, durante a conferência de imprensa de anticipação à estreia de Cover-Up, o seu novo trabalho documental, realizado em coautoria com Mark Obenhaus.

Centrado no jornalista Seymour Hersh, vencedor do Prémio Pulitzer, conhecido pelas suas investigações contra os abusos militares e políticos nos Estados Unidos, o filme marca o rresso de Poitras a um certame onde há três anos conquistou o Leão de Ouro por All the Beauty and the Bloodshed (Toda a Beleza e a Carnificina), um documentário sobre a fotógrafa e ativista Nan Goldin.

Quero retratar pessoas de forma verdadeira, mostrando o impacto que podem ter na sociedade”, explicou Poitras. “Também procuro que os filmes sejam críticas construtivas. Este projeto olha para meio século de abusos de poder e violência, narrados através da lente do jornalismo. Para mim é essencial contar histórias guiadas pelas pessoas, mas que levem a refletir sobre o mundo.

Seymour Hersh em Cover Up

Não foi fácil à realizadora convencer Seymour Hersh a colaborar no seu filme, que levou 10 anos a ser concretizado. O jornalista finalmente acedeu, sublinhando em Veneza que foi a insistência da realizadora que o convenceu. “Com a Laura sabemos que a investigação é sempre profunda. Em 2005 não queria fazê-lo — estávamos no meio da guerra catastrófica no Iraque e havia um enorme fracasso do jornalismo. Eu era uma das poucas vozes que ia contra a narrativa dominante. Pareceu-me importante dizer a verdade e mostrar o valor do jornalismo de investigação, mas também o que acontece quando este entra em colapso. Infelizmente, continuo a sentir o mesmo hoje, olhando para Gaza e para a falta de uma narrativa justa. O filme mantém enorme relevância. (…) Estamos perante uma tragédia e a primeira obrigação é contá-la. Só recentemente começaram a abrir os olhos para o que está a acontecer. O problema é que isso não interessa ao mainstream. Desde o início dos anos 2000 os fanáticos religiosos quiseram assumir o controlo do país e, infelizmente, conseguiram. Quanto aos palestinianos, o futuro é trágico: não há lugar para eles, e isso não terá fim. É genocídio. (…) A fragmentação das notícias impede a maioria dos americanos de ter uma ideia clara do que acontece. É um enorme desafio. Ainda assim, temos de continuar a lutar: pelos jornalistas, pelas pessoas que morrem de fome em Gaza. Não podemos aceitar esta situação (…) Lembro-me que em 1969 havia três canais de televisão e dois ou três jornais. Hoje, com redes sociais e fragmentação mediática, o impacto é enorme. A verdade é manipulada. É um desafio que todo o jornalismo tem de enfrentar.

Explicando como conseguiu convencer tantas fontes a falar diretamente consigo, Seymour explica que no Departamento de Estado dos EUA, na diplomacia e até nos serviços secretos, há pessoas que fazem juramento à Constituição e que muitas delas acreditam que certas coisas, mesmo negativas, precisam ser reveladas. “É importante encontrá-las e ouvi-las”, acrescenta, dando o exemplo da Guerra do Golfo: “Algumas pessoas trabalhavam ao lado dos líderes e ainda assim comunicavam comigo, até por e-mail. É preciso integridade. Ainda existe jornalismo sério nos EUA, mas estamos a atravessar um momento negro devido à megalomania de certos líderes e à desinformação.”

Seymour Hersh em Veneza

Já sobre como consegue manter a sua integridade num tempo em que os factos parecem ser cada vez mais relativizados, Seymour responde que não é diferente do que acontecia antigamente: “No Vietname, por exemplo, o alvo nem eram os Vietcong, porque não os encontravam. Decidiram matar civis nos povoados só para ‘vencer a guerra’. Levou-me 20 ou 30 anos a compreender isso. A guerra tornou-se um massacre de inocentes, alimentado por informação errada. Os Vietcong eram mais numerosos e melhores soldados do que o governo americano admitia. O que procurei sempre foi transmitir essa verdade, por mais dura que fosse.

Combinando notas pessoais, documentos e imagens de arquivo, o filme — que funciona como denúncia e reflexão sobre o papel essencial da imprensa crítica — revela o processo minucioso do jornalismo de investigação, mas igualmente o ciclo de impunidade das instituições de poder.

A arte é sempre política. Não faço distinção entre géneros, mas não considero o nosso trabalho ativismo — é arte”, explica Poitras. “O que fazemos é contar a verdade, o que é muito difícil nos EUA. Trabalhei anos no New York Times e sei bem os limites: há linhas que não se quer ultrapassar, como aconteceu no Vietname.

O Festival de Veneza prossegue até dia 6 de setembro.

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