“La Memoria De Las Mariposas”: traumas que a borracha não apaga

(Fotos: Divulgação)
Isabel Madueño Medina e Tatiana Fuentes Sadowski

Antes de avançar numa conversa sobre os traumas latinos decorrentes da extração da borracha em solo sul-americano, Tatiana Fuentes Sadowski lembra orgulhosa do Urso de Ouro que o seu país, o Peru, conquistou na Berlinale, em 2009, com A Teta Assustada, a fim de dimensionar o cenário audiovisual da sua pátria hoje. A realidade peruana retratada por La Memoria De Las Mariposas – com o qual ela foi selecionada para o Fórum berlinense deste ano – remonta a um passado fronteiriço entre os séculos XIX e XX, quando as populações indígenas foram submetidas ao degredo. Ela sabe que o verbo ser, conjugado na frase acima, continua a ser usado no presente, numa desinência moral brutal de exclusão. Todos os latinos sabem. O seu filme mostra o que é sabido, a partir de uma foto. Ao seu lado, no evento germânico, a produtora Isabel Madueño Medina dimensiona números… e o desastre.

O estado hoje quer censurar o que há para ser apoiado, para evitar temas que gerem debate”, diz Maduño, ciente do empenho da sua colega para capturar resquícios imagéticos de suportes distantes das benesses da tecnologia digital, a fim de criar um caleidoscópio de lembranças.

Todos os arquivos são um espectro que carrega, em si, uma ficção, a se comportar como se fosse uma testemunha muda do que regista”, diz Tatiana, realizadora da curta-metragem Yo Marco Los Árboles Para Reconocerlos Después (2013). ”Nós trabalhamos em ‘La Mamoria De Las Mariposas’ com os resquícios de informações que passam a revelar algo de vital à luz do cinema”.

A expressão estética de Tatiana carrega uma bandeira política – na forma de processar registos em película Super-8 – ao abordar a violência histórica contra as populações indígenas de áreas de colonização ibérica. O marco zero do filme foi a descoberta de uma foto antiga de dois indígenas que foram levados a Londres para serem “civilizados” por volta da viragem do século XX. Os seus nomes eram conhecidos: Omarino e Aredomi. O destino deles, não. “Um território fala por meio das recordações que guarda”, diz Madueño, lembrando que os acervos em França e Inglaterra foram consultados por Tatiana.

O seu caleidoscópio visual atomiza o valor supostamente absoluto de fotografias que não foram analisadas por um prisma humanista. “Em toda a América Latina há famílias que tiveram alguma ligação com o sistema de exploração colonial dos seus recursos”, diz Tatiana. “Os fantasmas que revelamos não se limitam à comercialização da borracha. Eles expões a dinâmica das elites” .

A 75. Berlinale segue até o dia 23 de fevereiro.

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