Nascido de um acaso feliz –  o reencontro milagroso de três fitas MiniDV, esquecidas durante 24 anos, captadas em Gaza em 2001 – With Hasan in Gaza, o novo filme do realizador palestiniano Kamal Aljafari, é um retrato de um território que já não o é. Apresentado na Competição Internacional do Festival de Locarno, o filme surge como um testemunho  — uma homenagem à Gaza e ao seu povo, num momento de profunda aniquilação da existência palestiniana.

Memória, perda, identidade e resistência têm feito parte da espinha dorsal do conjunto da obra de Kamal Aljafar, que em 2024 teve direito a uma retrospetiva do seu trabalho em Portugal, via IndieLisboa. Em Al Sateh (2006), um filme íntimo em que, após se reunir com a família em Ramle, o realizador questiona se é possível concluir a construção de uma casa à qual já não pertence. Em Port of Memory (2010), Aljafari volta-se para Jaffa, a cidade conhecida como a “Noiva do Mediterrâneo”, onde um homem enfrenta a ameaça de perder a sua casa, enquanto duas mulheres resistem, cada uma à sua maneira. Recollection (2015) é uma viagem visual que agarra em imagens raras de arquivo, filmes israelitas e americanos (até Chuck Norris aparece), filmados entre 1960 e 1990, para recuperar o olhar do cinema sobre a cidade. 

Com Paradiso, XXXI, 108 (2022), Aljafari cria uma peça experimental e perturbadora, inspirada no Inferno de Dante, onde o som de um avião domina tudo, anunciando um ataque iminente. Em 2024, evocando a vigilância aérea israelita e, novamente, a apropriação do território palestiniano, ele lança UNDR, um ensaio visual de 15 minutos, em que imagens aéreas de helicópteros sobrevoam o deserto, mostrando intervenções humanas, agricultores e crianças a brincar, enquanto explosivos transformma a paisagem. Por fim, em A Fidai Film (2024), Aljafari, diante do saque do arquivo do Centro de Pesquisa Palestino em Beirute em 1982,  realiza um ato de sabotagem cinematográfica, uma contra-narrativa de resistência que tenta recuperar e reconstituir as lembranças roubadas.

Chegados a With Hasan in Gaza (2025), nele seguimos uma viagem do realizador pela faixa de Gaza, ao lado de Hasan, um guia local, numa jornada de norte a sul em busca de Abdel Rahim, um homem que conhecera em 1989, quando ambos estiveram presos no deserto do Naqab, em Israel. Na altura, então estudante de cinema em Colónia, Aljafari pretendia usar essas imagens para um projeto sobre o encarceramento juvenil. O projeto nunca avançou, mas o filme que nunca fez, por si só, e diante dos eventos que marcaram Gaza, o filme nasce como um ato de preservação da memória.

É que ao captar Gaza em 2001, um espaço cheio de vida com crianças a brincar, mercados cheios de gente, cafés com vida, e bairros onde a convivência é natural, mesmo sob permanente vigilância (Há muito que Gaza é uma prisão sob controle militar israelita), Aljafari mostra aquilo que hoje foi reduzido a escombros por Israel, em resposta ao ataque do Hamas, um ataque desproporcional e de caráter genocida, segundo relatórios da ONU. Ou seja, mais uma vez na obra do cineasta, as paredes agora arruinadas são preenchidas pelo cimento da memória. Canções clássicas árabes, como as de Nagat El-Sagheera, selecionadas pelo realizador, intensificam a nostalgia e instigam uma meditação cinematográfica sobre o passar do tempo.

Acentuando o tom trágico da atual destruição em massa e a morte de dezenas de milhares de pessoas, é inevitável ao espectador questionar o mesmo que Aljafari: quantos desses rostos foram apagados? Quantos nomes já não existem?

Sem saber o que aconteceu a Hasan ou aos outros que aparecem nas imagens, o realizador junta-se assim a um exercício de luto coletivo, cuja própria história pessoal encontra conexão: a família materna do cineasta, originária de Jaffa, foi deslocada para Gaza em 1948, tornando todo este exercício também num exercício pessoal e íntimo.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/3l4s
Pontuação Geral
Jorge Pereira
with-hasan-in-gaza-o-cimento-da-memoriaMais uma vez na obra do cineasta, as paredes agora arruinadas são preenchidas pelo cimento da memória