Em competição pelo Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, Sorella di Clausura é um retrato feroz de uma sociedade à beira de um ataque de nervos — onde o sonho individual e o sonho coletivo se desfazem simultaneamente, vítima da proliferação de ilusões vendidas a metro. 

Realizado por Ivana Mladenović, conhecida por Soldados, Uma História de Ferentari (2017), um retrato íntimo e cru da periferia de Bucareste, e Ivana the Terrible (2019), uma autoficção marcada pela ironia e caos, este novo filme da cineasta sérvia nunca esconde as suas garras: o absurdo, o íntimo e o político colidem num objeto cinematográfico que chega ao grande ecrã com o estrondo de um grito de desespero e culmina num silêncio desarmante.

A história centra-se em Stela (Katia Pascariu), uma mulher de 36 anos, desempregada, invisível, confinada a um apartamento apertado com a família alargada, numa Roménia pós-adesão à União Europeia. A sua vida é marcada pela precariedade e por uma solidão que parece não ter fim. A sua única âncora é uma ilusão: Boban (interpretado por Miodrag Mladenović, pai da cineasta), um cantor popular sérvio por quem se apaixonou aos 12 anos, ao vê-lo na televisão. Daí nasceu uma obsessão, alimentada ao longo de décadas, tornando-se este um objeto de culto que dá sentido à sua existência. Um ato de pura sobrevivência emocional onde as cartas apaixonadas, escritas com intensidade, são transformadas num manuscrito quando Stela é instigada a expor no papel a sua experiência. Seria através da escrita que a sua vida iria encontrar luz, mas é só mais uma forma de falsas esperanças e o caos amontoa-se.

Quando Stela conhece Vera (Cendana Trifan), uma cantora pop glamorosa e enigmática, cujos rumores dizem que é a nova amante de Boban, ela vê uma porta entreabrir-se. Vera oferece-lhe acesso ao seu círculo, a proximidade com o ídolo, e a possibilidade de uma vida diferente. Mas o que surge é uma nova teia de falsas promessas, luxo passageiro e dependência. A ascensão vem com a humilhação e novos dilemas: mudar de cidade, trabalhar como testadora de produtos sexuais, e fingir um romance com um jovem curandeiro cigano, tudo para agradar aos anfitriões de um universo que vive das aparências.

O filme decorre em 2008, um ano simbólico: a Roménia acaba de entrar na União Europeia, mas é imediatamente atingida pela crise económica global. A promessa de modernidade, progresso e integração revela-se uma miragem. O dinheiro aparece a tanta velocidade como desaparece. O sonho desfaz-se. E é aqui que o paralelo se torna devastador: assim como o país é traído pelas falsas promessas, Stela segue o mesmo caminho. O colapso individual espelha o colapso nacional, e vice-versa.

Baseado no manuscrito autobiográfico de Liliana Peric, Sorella di Clausura é uma ficção profundamente enraizada num relato pessoal, onde memórias pessoais, experiências de amigas da cineasta e figuras do passado se fundem com exagero e humor negro. Mladenovic escolhe uma estrutura episódica, , num amontoar de situações cada vez mais bizarras no mundo da protagonista. Nesse aspeto, a fita rejeita somente o romantismo, especialmente na forma como coloca todos os encontros de Stela com homens no campo do fracasso, para não dizer ridículo. Já Boban, o ídolo de serviço, funciona como crítica  à cultura das celebridades e à cegueira dos seus seguidores.

Com uma montagem precisa de Vanja Kovačević  e uma estética “balkan grunge” — crua, suja, inspirada nos visuais dos anos 80 e 90 —  trabalhada pela fotografia de Marius Panduru, Sorella di Clausura segue as linhas do Novo Cinema Romeno (de Radu Jude) — não só, mas muito por culpa da presença de Katia Pascariu, tão visceral aqui como em Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental. A mistura de crítica social, ironia e fragmentação narrativa aproxima o filme também a essa vaga cinematográfica. E Katia Pascariu está novamente desarmante: de corpo e alma, entrega-se sem barreiras, fundindo o seu ferramental dramatúrgico com o instinto. A presença de uma atriz entre muitos não-atores, eleva a autenticidade de tudo o que assistimos. No final, todas as cenas do filme espelham uma atmosfera de caos, precariedade e urgência emocional, como se o próprio país e Stela  estivessem a desmoronar-se em tempo real. E, por isso mesmo, Sorella di Clausura foi um dos melhores filmes a passar por Locarno em 2025.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
sorella-di-clausura-o-caos-como-testemunho-de-uma-epocaSorella di Clausura é um retrato feroz de uma sociedade à beira de um ataque de nervos — onde o sonho individual e o sonho coletivo se desfazem simultaneamente, vítima da proliferação de ilusões vendidas a metro.