Produzido por Rodrigo Areias da Bando à Parte de Portugal, sob direção da realizadora basca Jaione Camborda, “O Corno” garantiu ao cinema ibérico a Concha de Ouro de 2023, no fecho do 71ª edição do Festival de San Sebastián, neste sábado. O júri foi presidido pela cineasta francesa Claire Denis, que se deslumbrou com a força feminina retratada por Jaione. A sua trama se ambienta numa região próxima do rio Minho, numa recriação histórica do ano de 1971, em meio ao franquismo e aos anos finais do regime salazarista. Apesar do seu título sugerir adultério, no jargão popular dos povos latinos, essa lírica longa-metragem aborda o aborto, narrando a fuga de uma parteira que, ao ajudar uma jovem a terminar uma gravidez não desejada, transforma-se em alvo da lei. A fotografia é assinada por Rui Poças (de “Alma Viva“), o que amplia a força estética do argumento, calcado num debate sobre o corpo da mulher.

“Escutámos relatos reais de mulheres daquela região para a construção do filme, que fala do corpo como uma propriedade“, disse Jaione ao C7nema em San Sebastián.
Fonte de gargalhadas entre os 16 concorrentes à Concha, a comédia argentina “Puan“, sobre educação pública, feita em parceria com o Brasil, valeu a láurea de Melhor Argumento para a dupla María Alché e Benjamín Naishtat. O protagonista, Marcelo Subiotto, conquistou o prémio de Melhor Atuação do festival, dada também (em empate técnico) ao japonês Tatsuo Fuji por “Great Absence“. Já a distinção para o melhor secundário foi entregue a Hovik Keuchkorian, por “Un Amor“.
Na realização, a Concha de Prata foi para Taiwan, entregue a dois estreantes em longas-metragens: a realizadora Ping-Wen Ang e ao seu colega Tzu-Hui Peng por “A Journey In Spring“. O Prémio do Júri foi para a Escandinávia dado a “Kalak“, da sueca Isabella Eklöf. O filme recebeu ainda a láurea de Melhor Fotografia, dada a Nadim Carlsen.
Na mostra Horizontes Latinos, a herança marxista do cinema argentino foi vencedora com a coroação do drama de tons sociais “El Castilo“, de Martín Benchimol.
Já o Júri Popular da mostra Perlak distinguiu “A Sociedade da Neve“, de J. A. Bayona, sobre a tragédia dos Andes de 1972, que envolveu a queda do avião da seleção uruguaia de rúgbi. Em paralelo à premiação, San Sebastián exibiu o filme surpresa “The Killer“, de David Fincher, e fez uma sessão de gala de encerramento com “Dance First” – cinebiografia do dramaturgo Samuel Beckett, com Gabriel Byrne.

