Mestre absoluto da luz nos ecrãs europeus, Rui Poças assina a direção de fotografia do tocante “O Corno” (O Corno do Centeio, em Portugal), o que já é, no arranque do filme, uma certeza de espetáculo visual que não vai trafegar por terrenos óbvios. Com essa marca de autor a seu lado, a realizadora Jaione Camborda tem um chão sólido para poder investir, de modo radical, nas camadas morais, existenciais e até políticas do espectro do provincianismo, tema essencial do seu guião. A força gestual da atriz Janet Novás também amplifica a investigação social e comportamental que é feita a partir de uma reconstituição da Espanha do início dos anos 1970.
Somos levados a uma zona de fronteira com Portugal, numa época na qual o franquismo era um fantasma assustador para a liberdade ibérica. A Revolução dos Cravos também ainda não havia se passado, ressaltando o tom fascista daquela geografia. Num mundo conservador, a ideia de uma mulher como María (papel de Janet) – uma parteira que, em segredo, ajuda as moças da aldeia a abortarem – soa inadequada e perigosa. Ela é um elemento subversivo num sistema contagiado pelo ranço da dominação absolutista.
Janet tira María do lugar comum da heroína social aguerrida e impávida, com a ajuda da escrita fina de Jaione. É uma mulher que deseja, que erra, que sente medo. É na vulnerabilidade que ela deixa refletir os perigos do mundo onde vive, sem abrir mão de sua solidariedade.
Já nas cenas iniciais, na paleta terrígena de Rui Poças, vemos o trabalho de María para ajudar uma parturiente. É um parto doído, retratado como se fosse uma coreografia. Na sequência, brota a intriga que move o filme e lhe salpica com o tempero do thriller: o pedido de ajuda de uma mulher que necessita abortar vai colocar a protagonista em risco. A única saída que tem para fugir do tribunal civil de uma sociedade avessa ao aborto é fugir. Nessa fuga aparecem satélites, entre eles Anabela, vivida por Siobhan Fernandes (de forma sóbria, mas contundente). É uma garota de programa que vai auxiliar María, num timbre de sonoridade. Há vários ao longo da narrativa, sempre discretos. A subtileza é um dos trunfos do filme, que vive picos de excelência durante um número de magica e numa sequência sexual regada a leite materno. O rigor dos planos prova a evolução de sua cineasta na comparação com (o já sólido) “Arima” (2019).




















