Stand Up: levantar-se sem cair no lugar-comum

(Fotos: Divulgação)

Construído a partir da perspetiva de pessoas com deficiência e moldado pelas experiências do realizador Mari Sanders e dos protagonistas Lucia Zemene e Daan Buringa, Stand Up estreou no Festival de Tribeca, em Nova Iorque, sem pretensões de transformar a vida das pessoas que retrata em matéria para um melodrama. Sim, a deficiência está no centro do filme, mas não como uma tragédia ou prova de superação.

Como qualquer jovem de 23 anos, Vera gosta de festas, anda de bicicleta, assume riscos e vive como se nem houvesse amanhã. Pelo menos até que, numa noite, depois de uma saída à noite e um engate numa discoteca, sofre um acidente e perde uma perna. A partir daí, a jovem fica suspensa entre duas vidas: a dos os amigos sem deficiência que pertenciam ao seu mundo anterior e Xander, um jovem utilizador de cadeira de rodas que se move com um grupo de pessoas na mesma situação com uma atitude frontal perante a sociedade.

Sempre me interessou a deficiência enquanto fenómeno social”, explicou Mari Sanders ao C7nema, numa entrevista por Zoom, dias antes da estreia em Nova Iorque. “O que acontece ao ambiente que rodeia a pessoa? Como lidam os outros com a diferença? Como é que a deficiência passa a fazer parte da identidade de alguém? E o que diz sobre nós a forma como olhamos para quem é diferente?”, questiona o cineasta neerlandês, para quem a deficiência funciona como uma metáfora para muitas outras coisas. “Todos nós lidamos com limitações e com a transformação dos nossos corpos ao longo da vida. A diferença é que, neste caso, essas limitações são visíveis.”

Contando ao C7nema a origem do projeto, Mari explica que inicialmente começou por imaginar duas personagens, “duas vozes que, de certa forma, também existem” dentro de si. Uma delas acredita que é preciso lutar para encontrar lugar numa sociedade que não foi pensada para pessoas com deficiência, enquanto a outra recusa a lógica de adaptação e afirma: “A sociedade não foi feita para mim. Não me vou adaptar a ela.”

Stand Up

Descrevendo o cinema como uma criação coletiva, algo que começou logo no processo de escrita do argumento, desde cedo a sua vontade de colaboração esbarrou num bloqueio estrutural da própria indústria. “Quando falava com atores ou criadores com deficiência, muitos diziam-me que gostariam de trabalhar como atores, mas que nunca lhes davam oportunidades”, recorda. “Por outro lado, quando falava com realizadores e produtores, ouvia repetidamente que eles gostariam de trabalhar com pessoas com deficiência, mas que não conseguiam encontrá-las.” Entre uns e outros, ele percebeu que parecia haver “um muro”, dando como exemplo o casting que lançou para o filme. Quando o anúncio foi divulgado pelos canais tradicionais, “não recebemos uma única resposta”; mas quando publicou nas suas redes sociais, surgiram “oitenta respostas num único fim de semana”. “Existe uma enorme barreira entre a comunidade das pessoas com deficiência e a indústria cinematográfica”, diz-nos, reforçando a sua responsabilidade em fazer de Stand-Upuma oportunidade rara para essas pessoas serem vistas e ouvidas”. 

Essa vontade de deslocar o olhar estendeu-se também à forma como o filme lida com o desejo, o sexo e a vulnerabilidade. “Uma das coisas que mais me interessam na comunidade da deficiência é precisamente a questão da sexualidade e da frustração sexual”, assume Sanders. O filme não tenta higienizar esse território, nem fingir que o corpo deixa de desejar depois da deficiência. Pelo contrário, o que lhe interessou foi mostrar que ambas as personagens precisavam de redescobrir o sexo e posicioná-lo nas suas vidas. Para isso, diz-nos, era preciso primeiro aprender a serem vulneráveis, recordando que essa dimensão não se esgota na intimidade física: “Não fala apenas de sexo. Fala da relação com o corpo, da relação consigo próprio e da necessidade constante de nos reinventarmos ao longo da vida.” Daí que Stand Up seja, nas suas palavras, “a história de duas pessoas que tentam reinventar a vulnerabilidade”, tocando em temáticas que “continuam a ser um enorme tabu”.

Outra cena que melhor sintetiza as tensões existentes no filme é quando um dos “normies” (assim são tratados aqueles sem deficiência) pergunta a Vera, uma “Crip”, se ela voltará a andar, como se a existência da jovem estivesse reduzida a essa questão e possibilidade. Para Sanders, esta situação é recorrente, com a curiosidade a surgir antes da empatia. 

O que acontece é que as pessoas ficam imediatamente fascinadas pela deficiência. A primeira pergunta costuma ser: ‘O que aconteceu?’ ou ‘Qual é exatamente a tua deficiência?’”, observa o realizador, sublinhando que “isso é uma pergunta profundamente íntima (…) Existe um desencontro entre uma sociedade obcecada pela cadeira de rodas e a pessoa que está sentada nela.” As pessoas, diz, “ficam desconfortáveis e tentam rapidamente preencher esse desconforto com perguntas”.

Stand Up

A dimensão política e artística de Stand Up passa também pela forma como o filme repensa a representação da deficiência. A cena inicial, em que Vera surge antes do acidente, foi criada com recurso a duplos e efeitos visuais, permitindo que uma atriz com deficiência interpretasse uma personagem sem deficiência nos primeiros minutos. Para Sanders, esta escolha foi uma inversão deliberada de uma prática histórica do cinema. “Foi também uma forma de dizer ‘vai-te lixar’ à indústria”, afirma, lembrando que “durante mais de cem anos foi considerado normal colocar atores sem deficiência a interpretar personagens com deficiência”. Aqui, faz-se o contrário. “Se houve uma afirmação mais política da minha parte, foi essa”, sublinha.

Esse gesto liga-se também ao desafio maior da produção, o de “romper” com a narrativa estabelecida em que “alguém tem uma vida feliz, acontece uma tragédia, tudo desmorona, a pessoa reaprende a viver e encontra um novo sentido para a existência”. 

Em vez desse percurso previsível, Sanders procurou fazer “um filme radical na sua delicadeza”, assente nas nuances. As opções estéticas acompanham essa intenção, com uma das ideias centrais a ser o filmar quase sempre à altura da Vera. A música segue a mesma direção, não apenas como fundo discreto, vindo a inspiração  “do movimento circular das rodas”, uma “ideia de rotação constante” que atravessa toda a banda sonora.

A estreia em Tribeca deu a Stand Up uma projeção que Sanders não esperava, confessa. “Sou um realizador muito humilde e bastante nervoso”, admite, acrescentando que continua sem acreditar que “uma pequena produção holandesa” tenha sido escolhida entre os nove filmes internacionais selecionados pelo festival. Para ele, esse reconhecimento confirma a força do contar “uma história com autenticidade”, algo que as pessoas sentem.

Ainda assim, o salto para a dimensão internacional não altera a sua relação desconfortável com a exposição pública. “A verdade é que me sinto muito mais confortável a falar sobre cinema do que a desfilar numa passadeira vermelha”, diz-nos, afirmando que gosta de fazer filmes e que, por isso, prefere “uma conversa” sobre a obra ao “espetáculo que muitas vezes acompanha os festivais de cinema”. 

O Festival de Tribeca prossegue até ao dia 13 de junho.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/hkr7

Últimas