Zarpa-se de modo tenebroso pela águas deste drama escandinavo, a partir de uma sequência de abertura centrada numa relação incestuosa de um pai e filho. A figura paterna em questão, defendida de forma mefistofélica por Soren Hellenrup, vai assombrar os rumos do confuso protagonista, Jan, um enfermeiro, durante todo o filme da sueca Isabela Eklöf. As suas confusões são da ordem dos afetos e do atropelo amoroso. Mas não se trata de uma figura amarga. Cheio de nuances, a interpretação de Emil Johnsen, que encarna Jan, garante-lhe múltiplas camadas de angústias existencial, mas uma indisfarçável simpatia natural. Parece uma personagem de Ben Stiller, nas suas comédias mais inspiradas. O uso da palavra que dá título à longa, “kalak“, enche esse sujeito de orgulho. É um termo das populações da Groelândia, que define um tipo “malandro”, ou “sujo”, como aquele povo traduz.

Apoiada na fotografia apolínea (de cores suaves) de Nadim Carlsen, o processo de direção de Isabella parte da figura alquebrada de Jan para estruturar uma crónica (universal) sobre as práticas do desejo. O seu roteiro, baseado num romance memorialista de Kim Leine, explora o protagonista a fundo, estabelecendo um vínculo indissociável entre ele e a plateia. Ao contrário da sua longa anterior, a estilizada “Holiday“, de 2018, a realizadora segue uma trilha mais contida (leia-se clássica) na sua condução narrativa, na qual só arrisca uma ou outra elipse. Diante da complexidade psicológica de Jan, ela toma rotas dramáticas convencionais ao se concentrar na ciranda de amores na qual a sua personagem – que troca a Dinamarca pela rotina de um posto de saúde na Groelândia – se perde.

Jan é casado e tem um casal de filhos pequenos. A sua mulher (vivida por uma inspirada Asta Kamma August) é um poço de compreensão diante dos deslizes dele, obcecado em viver casos com outras mulheres. Há cartas do pai, aquele que abusava dele no passado, na caixa do correio da família. Uma hora, a abertura dessa correspondência vai levar o filme a uma viragem brusca, mas nunca de tons moralistas. Isabella nunca dá exotismo ao mundo que retrata, nem faz julgamentos quem faz parte dele. Ela só observa, apenas escuta. Há empatia, mas também há uma certa inércia no seu arranjo dramático. É onde o filme se enfraquece.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
kalak-palavras-de-ordemIsabela Eklöf só observa, apenas escuta. Há empatia, mas também há uma certa inércia no seu arranjo dramático. É onde o filme se enfraquece.