Adaptação do romance “La Vie et la Passion de Dodin-Bouffant, gourmet” (1924), de Marcel Rouff (1877-1936), o primeiro filme do vietnamita Tran Anh Hùng depois de um hiato de sete anos (“Éternité” foi em 2016) é motivo de uma cisão entre a crítica presente na Croisette. Parte dela se encantou com a exuberante abordagem do realizador de “L’Odeur De La Papaye Vert” (1993) para o universo da culinária de França no século XIX. Parte viu clichês e lugares comuns na forma como o cineasta busca sensualizar a narrativa, usando a gastronomia como metáfora visual. “Parti de um livro sobre a arte de cozinhar e também um conto sobre o amor, com o cuidado de alcançar um balanço entre os dois“, disse Hùng a Cannes. “O cinema nunca pode ser usado como instrumento ou como algo a ilustrar uma premissa. Cinema é linguagem. Se podes criar uma emoção nas telas, ela deve vir de um procedimento da linguagem“.
Ambientada em 1885, “La Passion de Dodin Bouffant” acompanha os rituais culinários diários feitos pela chef Eugenie, vivida por Juliette Binoche, na sua relação da mais acalorada e cúmplice paixão pelo gourmet Dodin, vivido por um inspirado Benoît Magimel. Amigos da alta sociedade dele vão à sua casa para se deliciar com os pratos preparados por Eugenie. É esperada até a vinda de um nobre. Mas ela começa a dar sinais de estar gravemente doente. É aí que Dodin decide inverter os papéis e cozinhar para ela.
“Queria fazer um filme que fosse bem francês, mas é difícil apontar as referências diretas de grandes nomes do cinema gaulês. O melhor gesto quando se faz um filme é procurar a própria voz. Há, contudo, um realizador que sempre levo comigo: Godard. Cada filme dele tinha uma frescura. Gosto da sua luz“, disse Tran ao C7nema.

Durante a conversa com os jornalistas, Juliette, que viveu um romance com Magimel na vida real, deu à longa-metargem de Hung uma definição poética. “É um hino ao amor e à beleza“, disse a atriz. “É um filme feminista. Tran quis retratar a mulher com o status correto, justo. Ela é um signo de independência“.
Magimel elogiou a precisão e forma concisa de trabalhar do seu realizador: “As palavras não são necessárias para expressar o que procuramos. A palavra que precisamos é Dodin procurar sempre a Eugenie, sempre curioso com ela”, disse Magimel.
Elogiado pela força da sua fotografia saturada, assinada por Jonathan Ricquebourg, “La Passion de Dodin Bouffant” impôs a Tran um desafio sinestésico: “Como é que se reproduz em imagens a sensação de provar um prato e degustar uma iguaria? O que procurei foi evitar explicações sobre o prazer de comer (…) O som foi o ponto mais desafiante na montagem, pois ele é o tempero das imagens. Era o som de uma cozinha viva. Com esse som, não precisávamos de música“.
O Festival de Cannes termina neste sábado, com a entrega da Palma de Ouro e a projeção de “Elemental“, da Pixar.

