Depois de uma projeção para convidados de “Triângulo da Tristeza” (“Triangle of Sadness”), o vencedor da Palma de Ouro, a Mostra de São Paulo abre para o público, esta quinta-feira, uma seleção de 223 produções de 61 países. Vejamaqui uma lista de atrações imperdíveis:
O PORÃO DA RUA DO GRITO, de Sabrina Greve: Longa-metragem de estreia da talentosa estrela de “Uma Vida Em Segredo” (2001) calcado nos códigos do terror e nas narrativas à la “Poltergeist” (1982) de casas assombradas. Na trama, Jonas (Giovanni De Lorenzi) e Rebeca (Carol Marques da Costa) carregam a herança de uma família que um dia foi muito rica. Hoje, ela se encontra em uma situação económica precária, num casarão incompatível com a situação financeira atual deles. Lá, o apego do rapaz às raízes (assombradas pela violência doméstica) vai libertar diversos demónios. O domínio de Sabrina sobre o espaço cênico, criando uma interseção matemática entre Passado, Presente e a insanidade beiram a excelência.
O VISITANTE (“El Visitante”), de Martin Boulocq: Vem da Bolívia a saga de um ex-presidiário que sai do cárcere para refazer a sua vida com a filha, sendo obrigado a encarar o fervor religioso de um pastor evangélico que adotou a garota. O uruguaio Cesar Troncoso é um dos destaques do elenco. Conquistou o prémio de Melhor Roteiro em Tribeca e vem arrebatando plateias pelo mundo, incluindo o Prémio de Melhor Filme Internacional em Antalya.
BOCAINA, de Ana Flávia Cavalcanti e Felippe Gamarano Barbosa: Um ensaio sobre o Tempo na Serra da Bocaina, construído a partir da fotografia contemplativa de Heloísa Passos, num desenho narrativo que evoca “Limite” (1931), de Mário Peixoto. Na trama, duas mulheres acolhem um estranho e se embrenham numa transformação dentro das margens das suas vidas, embaladas a Parménides (filósofo que dizia: “nada muda”), permite. Malu Galli e Ana Flávia têm atuações inquietantes calcadas no silêncio.

TENHO SONHOS ELÉTRICOS (“Tengo Sueños Eléctricos”), de Valentina Maurel: Um dos filmes mais badalados da edição 75 de Locarno vinha da Costa Rica e concentra-se na reestruturação afetiva de uma família, após uma separação, com foco no processo de amadurecimento de uma adolescente criada num ambiente artístico. Saiu de San Sebastián com o prémio principal dos Horizontes Latinos. Na trama, Eva (Daniela Marín Navarro) e o gato são amigos inseparáveis que passam por problemas depois que a mãe decide expulsar o felino do lar. A saída para a menina é ir viver com o pai: um tradutor e aspirante a poeta (Reinaldo Amien Gutiérrez) que não parece muito disposto a crescer, mas ama a filha sobre todas as coisas. A fotografia de Nicolás Wong Diaz é um assombro, na sua habilidade de dialogar com códigos do realismo. Ganhou os prémios de Melhor Realização, Atriz (Daniela) e Ator (Reinaldo) em Locarno.
NAYOLA, de José Miguel Ribeiro: Uma das animações mais arrebatadoras do ano vem de Portugal. Idealizada pelo realizador de “A Suspeita” (2000), o filme faz um balanço dos traumas bélicos de Angola. A trama segue três gerações de mulheres afetadas pela guerra civil: a avó Lelena, a filha Nayola e a neta Yara. Um segredo doloroso, uma busca imprudente, uma música de combate, um amor suspenso e uma jornada de iniciação: essa é a fórmula do roteiro, que foi aplaudido com ardor no Festival de Annecy.
PRAIA DO SILÊNCIO, de Francisco Garcia: Numa fotografia elegante, assinada por Pedro Maffei e Rafael Martinelli, este drama do responsável por “Borrasca”, com produção de Beto Brant e Renato Ciasca, faz uma análise das ressacas morais do país a partir das memórias e vivências de um professor reformado, vivido por André Gatti. A aproximação de uma jovem vai tirá-lo da inércia. Jovem essa que oferece à atriz Ana Abbott a chance de expressar toda a força do seu ferramental dramático, embalada pela banda-sonora preciosa de Pedro Santiago.
EXU E O UNIVERSO, de Thiago Zanato: A merecidíssima conquista do troféu Redentor de Melhor Documentário no Festival do Rio, após uma sessão popular abarrotada no Cine Odeon, deu a essa investigação mítica, etnográfica e ética uma visibilidade à altura da divindade de origem africana que investiga. O filme estuda o mensageiro dos orixás, a entidade que faz da comunicação a sua força, sendo confundida com o demónio em liturgias cristãs.

GIGI LA LEGGE, de Alessandro Comodin: Hilária esta comédia à italiana com aspecto de documentário, narrada quase que inteiramente com a câmera centrada num guarda rodoviário, Gigi (Pier Luigi Mecchia, brilhante), que anda pelas estradas de um lugarejo sem qualquer sinal de confusão. Quando o corpo de uma mulher, aparentemente suicida, aparece o largo de uma linha de comboios, ele vai investigar o caso, enquanto inicia um flirt por rádio com uma colega que conhece apenas pela voz. A montagem é do cineasta português João Nicolau, de “John Fromm”. Ganhou o Prémio do Júri em Locarno
O CLUBE DOS ANJOS, de Angelo Defanti: Esbanjando elegância na direção de arte de Fernanda Carlucci, esta imersão na prosa de Luís Fernando Veríssimo consagra a potência estética da fotografia de Rui Poças numa “narrativa de gabinete”, centrada em uma série de jantares suntuosos, indo de paella a picadinho. Na trama, um grupo de velhos amigos vê os laços de amizade remendados num nababesco banquete proporcionado por um cozinheiro misterioso, interpretado por um mefistofélico Matheus Nachtergaele. A comilança desse povo é regada a temperos mortais, testemunhadas, em fluxos de pensamento e imagens de VHS por uma taciturna personagem vivida por Otávio Müller.
COMO ESTÁ KATIA? (“Yak Tam Katia?”), de Christina Tynkevych: Elogiado nas mais variadas línguas, na sua passagem por Locarno, esta longa-metragem deu ao cinema ucraniano o Prêmio Especial do Júri na competição Cineastas do Presente, que se dedica a longas de novas promessas. E ainda ganhou a láurea de Melhor Atriz, confiada à arrebatadora performance de Anastasia Karpenko. No doloroso filme de Christina, a protagonista é a médica Anna (Anastasiya), que passa os seus dias prestando auxílio a pessoas feridas em situações de risco inusitadas. Ela acaba de firmar uma hipoteca cara, em busca do sonho de levar uma vida melhor com a filha, Katia (Kateryna Kozlova), que ainda é uma criança. Mas um acidente com a jovem vai mudar os rumos da sua trajetória pessoal e profissional.
ARMAGEDDON TIME, de James Gray: Produção do brasileiro Rodrigo Teixeira, este drama geracional evoca “Os 400 Golpes” (1959), de François Truffaut, ao enveredar pelas angústias de jovens rebeldes. O aborrescente em questão, Paul Graff (Banks Repeta), é um jovem judeu de uma família rica que vai testemunhar a exclusão racial do seu melhor amigo na Nova Iorque dos anos 1980, nas suas áreas mais intolerantes. Anthony Hopkins vive o avô do rapaz. E Jeremy Strong tem uma atuação furiosa no papel do pai de Graff.
COM AMOR E FÚRIA (“Avec Amour et Acharnement”), de Claire Denis: A aclamada cineasta francesa deixou a Berlinale com a láurea de Melhor Realização. Na trama, rodada após o primeiro confinamento em Paris, uma radialista (Juliette Binoche) vive um casamento feliz com o atual marido (Vincent Lindon) até que o seu antigo namorado (Grégoire Colin) reaparece, tentando mordiscar o júbilo alheio. A banda-sonora é dos Tindersticks.
DIÁLOGOS COM RUTH DE SOUZA, de Juliana Vicente: Um diário afetivo de uma troca de vivências entre a realizadora e Dona Ruth de Souza (1921-2019), atriz que abre as alas para uma forte presença de atrizes negras no palco, televisão e cinema no Brasil. Os encontros da atriz de 98 anos com a jovem cineasta são a génese de novas perceções, que cruzam diálogos, memórias e um universo mitológico. Saiu do Festival do Rio com o troféu Redentor de Melhor Direção de Narrativas Documentais.

OBJECTOS DE LUZ, de Marie Carré e Acácio de Almeida: Uma radiografia do cinema português dos últimos 50 anos se desenha nas telas neste documentário ensaístico sobre a dimensão de transcendência da iluminação de um set. É um delicado exercício filosófico sobre a memória do audiovisual, produzida pelo sempre “brutal” Rodrigo Areias (de “A Távola de Rocha”). Acácio é um dos mais ativos diretores de fotografia da Península Ibérica e leva para os ecrãs trechos de longas-metragens que iluminou de 1967 até hoje.
BURNING DAYS (“Kurak Günler”), de Emin Alper: Um jovem procurador é transferido para uma pequena cidade turca, alvo de uma crise hídrica e de escândalos políticos. Após um primeiro contacto positivo, ele se envolve num número crescente de interações tensas e se vê arrastado para dentro da cena política local contra a sua vontade. Quando Emre cria um vínculo com um jornalista, a pressão na cidade aumenta à sombra de diversos rumores.
LA JAURÍA, de Andrés Ramírez Pulido: Vencedor de Melhor Filme da Semana da Crítica de Cannes, em maio, este estudo sobre o desamparo à juventude na Colômbia parte de um ambiente carcerário para analisar a liberdade. A trama se concentra na rotina de adolescentes internos num centro de detenção de menores nas cercanias de uma floresta.
FAUSTO FAWCETT NA CABEÇA, de Victor Lopes: No seu filme mais maduro, o responsável por “Língua” (2004) e “Serra Pelada – A Lenda da Montanha de Ouro” (2013) parte do desejo de construir uma cinebiografia do poeta e compositor por trás de “Kátia Flávia” para realizar um sinestésico jogo narrativo, em que passado real, memória pessoal e invenção se conjugam numa montagem exuberante.
ATÉ SEXTA, ROBINSON (“À Vendredi, Robinson”), de Mitra Farahani: A mais recente e, até agora derradeira, aparição de Jean-Luc Godard (1930-2022), que morreu em 13 de setembro, nas telas. Vencedor de uma láurea especial do júri da mostra Encontros, esta experimentação documental força, no sentido mais gentil possível do termo, uma interseção de saberes entre dois artistas multidisciplinares nonagenários – de um lado o cineasta e escritor iraniano Ebrahim Golestan; do outro, Godard. Numa alusão à literatura de Daniel Dafoe (1660-1731) e o seu consagrado “Robison Crusoé” (1719), a cineasta pinta os seus dois objetos de estudo como figuras insulares. Isolaram-se do mundo num insulamento lírico, pra criar sistemas semióticos e não-narrativas. Durante uma série de sextas-feiras, os dois trocam mensagens sobre o estado de coisas do mundo, numa correspondência recriada poeticamente.
ALMA VIVA, de Cristèle Alves Meira (Portugal): Que jóia esta combinação aparentemente não encaixável de fantasia e naturalismo, com algo de “Lazzaro Felice” (2018) e de Lucrecia Martel. É uma espécie de filme de fantasma, num flirt com a liturgia do luto e com a corrente chamada Extra-ordinária, na qual se cultuam eventos misteriosos sem explicações no Além. Uma menina (Lua Michel) vira um canal de carne e osso para a sua família, abalada por uma perda. É uma narrativa inquieta, de uma elegância notável na fotografia de Rui Poças, génio da imagem hoje na Europa.
O DEUS DO CINEMA (“Kinema no Kamisama”), de Yôji Yamada (Japão): 20 anos depois do seu seminal “O Samurai do Entardecer”, o nonagenário cronista da esperança no cinema japonês volta a encantar São Paulo com a história de um apostador inveterado que morre de amores por filmes, mas tem contas a ajustar com um amigo.
“Saturn Bowling”, de Patricia Mazuy: Elogiada pela revista “Cahiers du Cinéma” pela força imagética da sua imersão no código das narrativas policiais, Patricia refina o seu estilo, consagrado com “Paul Sanchez est revenu!” (2018), num thriller existencialista sobre a fraternidade. Sem medo da violência, a cineasta faz um ensaio sobre a fraternidade ao narrar o conflito entre um ambicioso oficial da polícia francesa, Guillaume (Arieh Worthalter), e o seu irmão picareta, Armand (Achille Reggiani). Os problemas entre eles começam quando o pai morre e deixa como herança um clube de bowling. Guillaume crê que deixar o negócio nas mãos de Armand pode salvar o sujeito do ócio e dos erros.

