Fest Aruanda fecha programação com aposta na expansão, atento à produção paraibana

(Fotos: Divulgação)

Se existe um recorte curatorial capaz de dar conta dos acontecimentos mais expressivos do cinema brasileiro em 2021, em meio à covid-19 e ao trânsito entre a vida online a o presencial, ele está no Fest Aruanda, em João Pessoa, na Paraíba, Brasil, que encerra a sua 16ª edição esta noite com uma cerimónia de entrega de prémios, com a certeza de ter concentrado na sua seleção o que houve de mais diverso na produção audiovisual do seu país neste ano.

Concorrem longas egressas de Roterdão (“A Felicidade das Coisas”, “Madalena” e “Capitu e o Capítulo”), Veneza (“A Salamandra”) e Annecy (“Bob Cuspe – Nós Não Gostamos De Gente”). Por trás da sua criação está o crítico e professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Lúcio Sérgio de Oliveira Vilar, que escolhe suas atrações apoiado no trabalho hercúleo de curadoria feita pelo jornalista Amilton Pinheiro – um pensador das múltiplas potências cinematográficas da sua pátria. Uma das atrações que mais mobilizaram o Cinépolis Manaíra Shopping, onde os filmes são exibidos, foi o documentário “Transversais”, de Émerson Maranhão, que aborda a luta de populações trans (mulheres e homens) do Ceará para enfrentar o preconceito.

O nome da maratona paraibana – que valoriza a produção do seu estado em sessões repletas de estudantes – refere-se a um termo religioso que designa a morada da luz dos espíritos no sincretismo de raiz africana. Refere-se ainda ao título de um filme seminal da estética audiovisual moderna no Brasil, rodado por Linduarte Noronha (1930-2021). Encarado hoje como um dos festivais de maior prestígio da América do Sul, por levar a reflexão académica para a projeção de curtas e longas-metragens inéditos, o Aruanda fecha as suas atividades com a exibição da curta “Aluísio, o Silêncio e o Mar”, de Luiz Carlos Vasconcelos, e da longa “Ney, à Flor da Pele”, de Felipe Nepomuceno. Em paralelo, haverá uma homenagem ao ator Othon Bastos e o lançamento do livro “Ney Matogrosso, a Biografia”, de Júlio Maria, com a presença do cantor.

Na entrevista a seguir, Lucio Vilar explica ao C7 como foi montar a engenharia de Aruanda neste ano de apogeu para o festival, com elogios de todo o país para o trabalho dele e de Amilton.

De que maneira você avalia o desenho estético da seleção deste ano, capaz de misturar novos talentos como Thaís Fujinaga (de “A Felicidade das Coisas”) com veteranos?

Posso dizer que tivemos uma edição marcada pela expansão, num momento em que existe uma retração em múltiplos eventos. Conseguimos contemplar muitos públicos distintos nas mostras paralelas, incluindo crianças, com a mostra Aruandinha, com animações e filmes infantojuvenis. Na competição, o Amilton correu atrás e conseguimos reunir jovens vozes da direção e integrá-las a um criador da magnitude do Bressane. Aliás, ter o Bressane na nossa cidade foi um grande feito. Onde quer que esteja, São Linduarte deve estar mexendo as cordas do destino em nosso favor, pois conseguimos um alinhamento com a programação de alguns dos maiores festivais do mundo. “Deserto Particular”, que veio de Veneza e virou o filme imenso que virou (é a escolha brasileira para disputar uma chance de conquistar uma vaga no Oscar 2022), também teve exibição aqui.

Qual é a relação do Fest Aruanda com a Universidade Federal da Paraíba e como essa conexão aporta um valor académico ao evento?

A ligação da universidade com o cinema é histórico e vem desde sua criação, feita por José Américo de Almeida. Ali começou o papel que a instituição assumiu de abrigar as atividades cinematográficas do estado, começando com cineclubes. O Fest Aruanda nasce em 2005 já com o apoio dela, que segue parceira em todas as nossas atividades. Ela hoje nos apoia, mas já não determina a nossa existência. O Aruanda nasceu como um património da universidade e, hoje, virou um património da Paraíba.

Como você avalia o cinema que é feito hoje na Paraíba e como o Aruanda impulsiona sua continuidade?

Sempre houve vinculação. Em 2018, quando o estado teve oito longas produzidos, levando um crítico, Luiz Zanin Oricchio, a fala numa Primavera do Cinema Paraibano, a gente exibiu seis desses títulos. Houve um salto na qualidade. Temos uma tradição documental desde nossa génese. O primeiro filme do nosso estado, depois de uma série de cinejornais, foi uma longa, de 1923, chamada “Carnaval Paraibano e Pernambucano”, de Walfredo Rodriguez. Antes de esse filme ser descoberto, acreditava-se que o primeiro também fosse um trabalho dele: “Sob o Céu Nordestino”, de 1929. Temos, na literatura, um expoente que foi o já citado José Américo de Almeida, autor de “A Bagaceira”, e, depois, o José Lins do Rêgo. Mas o nosso cinema não explora com tanta intensidade a veia literária, em parte por não fazermos muitas ficções por aqui. Historicamente, os nossos filmes mais importantes foram “Sob o Céu…” do Manfredo; “Aruanda”, do Linduarte Noronha; e “O País de São Saruê”, de Vladimir Carvalho, de 1971, que exibimos numa sessão em referência à preservação. Há uma produção local ainda inédita que acredito ter potencial para fazer sucesso, aí pela frente: o documentário de Marcus Villar sobre o músico Jackson do Pandeiro. Esse pode ser um sucesso.

A edição de 2020 ocorreu via internet, com a plataforma Aruanda Play tendo protagonismo na exibição. Como foi o regresso às atividades presenciais?


Foi pauleira em parte porque desabituamo-nos dessa vida presencial. Em 2020, houve uma série de incertezas inerentes ao uso da plataforma. Mas, este ano, dimensionamos o evento. Crescemos, e deu certo.

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