Aly Muritiba, realizador nascido no Nordeste do Brasil (na Bahia) e radicado no Sul do país (no Paraná), investiu recentemente a sua curiosidade sobre as asperezas afetivas da cultura persecutória da sua pátria em duas longas-metragens: um thriller cómico (hilariante) com visual digno de BD, chamado “Jesus Kid”, pelo qual ganhou o Kikito de melhor realização no Festival de Gramado, em agosto passado; e “Deserto Particular”, um road movie romântico até à medula sobre um polícia acusado de um crime brutal, Daniel (vivido por um inspirado Antonio Saboia), que viaja Km e Km para encontrar uma jovem, Sara, por quem se apaixonou nas redes sociais. Deixando Curitiba e indo para as paisagens nordestinas de cidades como Juazeiro, ele esbarra com o jovem Robson (Pedro Fasanaro, numa estonteante atuação), assolado por fantasmas homofóbicos. A jornada de ambos vai-se trançar de maneira tensa… uma maneira que traduz as intolerâncias brasileiras de ontem e de hoje.
Apoiado numa direção de arte meticulosa, a longa-metragem foi um dos títulos mais elogiados da Giornate degli Autori de Veneza em 2021. Na entrevista a seguir, Muritiba, conhecido por ficções (“Para Minha Amada Morta” e “Ferrugem”) e documentários (“A Gente”, “Pátio”) fala das veredas do realismo que vem desbravando numa trajetória das mais prestigiantes da América Latina.
Num momento histórico onde se cultua o ódio, sobretudo nas redes sociais, qual é o lugar para um filme de amor como o seu e quais laços “Deserto Particular” estabelece com as noções clássicas de romantismo?
É num tempo como esse – um tempo de ódio, de disputa, de briga e de raiva – que um filme de amor faz mais sentido. É num tempo como esse em que um filme de encontros e de afeto faz mais sentido. Em tempos como esse, tudo que nos ansiamos e desejamos é tranquilidade, afeto, abraço, carinho e amor. Nesse sentido, contar uma história de amor é mais que pertinente, é necessário. Acredito que as pessoas estão precisando disso, estão precisando viver – nem que seja na tela grande ou na fantasia – uma bela história de amor.
De que maneira a sua herança documental, que vemos nos seus primeiros filmes e na recente série “Caso Evandro”, influi na maneira de depurar a forma de um filme que começa como road movie, a investigar a geografia do Nordeste?
O documentarista é, antes de tudo, um curioso e alguém que exercita muito a observação e a escuta. O facto de ter vindo do documentário, de ter feito alguns documentários, foi essencial para que eu me desenvolvesse como alguém disposto a sempre encontrar o outro, a escutar o outro, a praticar o exercício da empatia, a tentar me colocar sempre no sapato do outro. Em “Deserto Particular”, isso é essencial e as personagens fazem isso. Temos este policia do Sul do Brasil que viaja ao nordeste e vai travar contato com uma cultura de pessoas muito diversas. Aos poucos, ele vai se transformando e vai, mesmo que de maneira intuitiva, percebendo que quando nós conseguimos nos colocar no lugar do outro, as coisas podem ficar mais leves. Até para ele, que levava uma vida tão pesada. Ao mesmo tempo, eu sou um cara do Nordeste que vive no Sul há 15 anos. Sou um cineasta que tinha feito toda a sua filmografia anterior no Sul ou Sudeste do país e tinha muito desejo de praticar esse encontro, de mim realizador com o lugar de onde eu vim e com o meu povo. Nesse sentido, a experiência como documentarista, também uma espécie de antropólogo, foi essencial para chegar lá, não com o olhar de quem é de lá, mas com o olhar curioso de quem se afastou de lá durante muito tempo e estava muito curioso e aberto para o encontro com o outro. Para ser contagiado e contaminado pelo outro. Um belo exemplo dessa abordagem documental da coisa no “Deserto…” é a cena em que Daniel está circulando pela cidade, conversando com as pessoas e perguntado por Sara. Aquilo é completamente documental, não foi combinado, nem ensaiado. As pessoas estavam de facto sendo abordadas e questionadas pelo ator sobre o paradeiro de Sara. Queria que a coisa fluísse o mais natural possível naquele momento.
E como fluiu a sua entrada nas locações?
Toda a história de Robson, que trabalha no CEASA (um entreposto comercial), apareceu a partir de visitas de locação, mas, antes de qualquer coisa, apareceu de uma experiência muito pessoal minha. Os meus irmãos e meu pai trabalham no CEASA de Juazeiro e, de tanto ir naquele lugar, decidi filmar ali. A produção avisou-me que não teria qualquer controle sobre o lugar e eu falei: “Tudo bem, eu vou com uma equipa pequena, uma equipa de documentário para filmar toda essa parte do CEASA porque quero as coisas acontecendo de verdade na tela”. Esse tipo de abertura para o real, acho que, sempre está presente nos meus filmes, especialmente agora em “Deserto Particular”.
O polícia Daniel (Antonio Saboia) é quase um Ronin, um samurai, na sua andança pelo Brasil, na sua retidão em busca de Sara. De que maneira essa personagem espelha as diferentes “toxidades” sociais que hoje assolam o Brasil?
Daniel é um cara perdido. É alguém com sentimentos que não sabe expressar, sentimentos com os quais não sabe lidar. Foi criado sob o signo da repressão, sob o signo de uma masculinidade muito impositiva, que é o meio policial. Ele é filho de um policia, neto de militar. Ele é um claro representante de certo tipo de gente, e de formação, que gera pessoas que podem ser muito tóxicas e perigosas. O facto é que, assim como se vê no meu filme, acredito que se nós nos comunicarmos com as pessoas, se nós estivermos abertos para encontrar essas pessoas e para nos abrir com elas, ou seja, se estivermos abertos a comunicação, as coisas podem ficar melhor, podem ser resolvidas de maneiras mais pacíficas, menos conflituosas e menos odiosas. É o que acontece entre Daniel e Sara, onde há uma possibilidade de confronto e de conflito muito grande, de visões de mundo, de background, de histórias e mesmo de posicionamento. Mas, ao fim, quando essas duas pessoas enfim decidem conversar e se olhar com atenção e se colocar no lugar do outro, as coisas melhoram.
Acabou de ser premiado em Gramado por “Jesus Kid”, um filme-cartoon genial, que parece uma BD filmada. Como administra as carreiras desses dois novos filmes, tão distintos? Para onde vão? Quando e onde estreiam? Como e quando foram filmados? Que ‘Brasis’ distintos traduzem?
Ambos foram filmados em 2019: “Jesus Kid”, no primeiro semestre; e “Deserto Particular”, no segundo semestre. Tive que fazer isso porque havia prazos que estavam a vencer. Demorou muito para captar o dinheiro desses dois filmes, então, ambos foram filmados de maneira muito próxima, e eu aproveitei o ano de 2020 para finalizar os dois e para trabalhar com todo o cuidado, com todo o esmero. Aí, obviamente, com os dois filmes ficando prontos ao mesmo tempo, havia o risco de competirem entre si nos festivais, o que não é bom para a carreira de nenhum dos dois filmes. Por isso, nós traçamos uma estratégia de vir primeiro com “Deserto Particular” para o mercado europeu e deixar o “Jesus Kid” reservado para o mercado brasileiro e norte-americano. Vamos tentar evitar que os dois filmes se cruzem. Depois que eles circularem pelos festivais e as vendas forem feitas, devem estrear no Brasil, mas em momentos diferentes. Um é uma espécie de road movie romântico e o outro é uma comédia ácida. Mas os dois falam sobre esse Brasil conservador, dividido e persecutório, no qual nós estamos a viver. Um faz isso na chave do humor. Com ele, rio e provoco o riso acerca dessas pessoas ultraconservadoras, que estão tentando calar as minorias, acabar com a cultura e com a arte. Já o outro, o “Deserto Particular”, é um filme em que eu falo de afeto, amor e encontros.
Qual é a natureza da solidão no seu cinema, tão cheio de solitários? Em que momento a solidão vira um objeto de estudo e o que ela traduz, das nossas inquietações sociais, como é a solidão de Robson?
Acho a solidão extremamente narrativa. Personagens solitárias me atraem muito, tanto na literatura, quanto no cinema. Pessoas solitárias são usualmente pessoas inquietas. Mesmo pessoas que acreditam não quererem algo, precisam de algo. Com isso, gente pode contar histórias sobre essas tais pessoas que precisam de algo… descobrindo seus quereres ou descobrindo suas necessidades e tentando supri-las. Interessa-me muito a personagem solitária e o meu filme é povoado dessas personagens, porque acho que elas são potentes de história e de narrativa.

