Revitalizado nos ecrãs norte-americanos por realizadores autoriais como Jordan Peele, Leigh Janiak, Nia DaCosta, Robert Eggers, Jane Schoenbrun, Michael Chaves, Leigh Whannell, James Wan, Osgood Perkins e M. Night Shyamalan, o terror tornou-se o espaço mais confortável para a fantasia fazer política. A sua relevância, como lugar de protesto (ou levante), cresceu a tal ponto que já ultrapassou filões altamente rentáveis como os filmes de super-heróis e as longas-metragens de catástrofe, graças à forma crua, direta e incisiva com que desnuda as neuroses e os delitos da sociedade norte-americana. Get Out (Foge, 2017) foi o termómetro de uma viragem no género, que um ano antes já tinha renovado a sua dimensão espetacular com The Conjuring 2 (The Conjuring 2: A Evocação, 2016) e a sua freira do inferno. Desde então, racismo, misoginia, feminicídio, xenofobia, fundamentalismo, homofobia e violências contra o corpo e a psique encontraram nas narrativas sobrenaturais uma apoteose.

A amplificação do tom crítico, sob um viés sociológico refinado, aprimorou sobretudo os diálogos presentes nas tramas de assombro. Aquelas que se alinham com a vertente do extra-ordinário — em que o mistério não é justificado pelo Além ou por intervenções alienígenas —, como Swallow (Engolir, 2019) e Shapeless (Sem Forma, 2021), abraçam pautas urgentes (sobretudo feministas) na forma como as personagens falam das opressões. Já os filmes de jump scare, nos quais o susto provoca sinestesias, mantêm as catarses — mesmo as mais chocantes — sem diluir a discussão social, como se viu no excecional Longlegs (O Colecionador de Almas, 2024) ou na saga Annabelle (2014–2019).

É raro — à exceção de Us (Nós, 2019) — encontrar um filme que alie o espanto a imersões no inusitado, com diálogos desconcertantes, subtileza e, ainda por cima, uma estrutura dramatúrgica de geometria não ortodoxa, à maneira de um quebra-cabeças. É esse o caso (notável) de Weapons, que chega a Portugal e ao Brasil a 7 de agosto. Em território lusitano chama-se Hora do Desaparecimento e, no Brasil, A Hora do Mal. Em bom português: é um filme para se mijar de medo.

Zachary Michael Cregger assina a realização, apostando radicalmente na tensão e na suspensão das nossas certezas, confirmando a destreza que já demonstrara em Barbarian (Bárbaro, 2022). A linha de ação politizada que o argumento — da sua autoria — traz é uma alusão, profundamente metafórica, à onda de crimes contra jovens em escolas, evocando o caso Columbine, retratado por Gus Van Sant há 22 anos em Elephant (2003), vencedor da Palma de Ouro em Cannes.

Weapons, ao contrário do que o título em inglês sugere, não mostra rapazes de liceu armados a disparar contra colegas. Apesar disso, sente-se a atmosfera paranoica de ambientes invadidos pelo risco de que a brutalidade reduza drasticamente o índice populacional dos estudantes. O tema é abordado nas franjas de um thriller que, cena a cena, mergulha nos braços do horror, construído com um orçamento de 38 milhões de dólares. A luz do diretor de fotografia Larkin Seiple (de Everything Everywhere All at Once — Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo, vencedor do Óscar) dá o toque fantástico necessário às sequências em que a razão cede lugar ao irracional, à magia.

A mestria de Cregger na construção do guião é o que mais garante a excelência de Weapons, desde situações aparentemente banais — como o reencontro de amantes alcoólicos num bar — até à conjuração de feitiços que transformam pessoas civilizadas em feras selvagens. Um elenco inspirado, que sabe oferecer à discreta Amy Madigan (de Streets of Fire) um papel à altura do seu vasto talento cénico, é o elemento que mais potencializa o discurso afiado de Cregger, da mesma forma que aprofunda os seus silêncios. Ela faz com que o filme se inscreva na genealogia das tramas de monstro, ao conceber uma figura vilã capaz de repudiar toda e qualquer humanidade.

Até a personagem da tia má, a Sra. Gladys, aparecer, a plateia agarra-se à cadeira e roe as unhas até à raiz, tentando perceber que diabo aconteceu ao grupo de alunos da professora Justine, personagem que Julia Garner constrói com múltiplas camadas existencialistas — e com um carisma que há muito lhe faltava. Imposturas alimentadas pelo álcool deram-lhe um passado nada louvável, mas não abalaram o seu afeto pelo seu corpo discente, que sofreu uma perda trágica. Um dia, ao chegar para dar aula, ela apercebe-se de que 17 crianças desapareceram, restando apenas uma: o pequeno Alex (Cary Christopher). Ninguém sabe o que aconteceu com elas, o que leva muitos pais — sobretudo o Sr. Archer Graff (Josh Brolin, monumental na sua atuação) — a desenvolverem rancor contra Justine e a duvidar da sua índole. Meses de desaparecimento transformam-na numa persona non grata na cidade, especialmente por insistir em manter contacto com Alex.

Esta cruzada investigativa é-nos contada em blocos — aparentemente paralelos, mas, até certo ponto, perpendiculares —, cada um dedicado a um cidadão com algum relevo na localidade, entre os quais se destaca o já mencionado Archer (em parte graças a Brolin, além de estar em excelente forma e ser produtor do filme); o polícia Paul (Alden Ehrenreich); o toxicodependente Anthony (Austin Abrams); e o diretor da escola Marcus (Benedict Wong, numa interpretação inspirada). Um a um, o público tem acesso às suas trajetórias de dor, até que uma colisão os une, sob o efeito das feitiçarias de Gladys, com sangue a correr, gritos a ecoar e a realidade a desmoronar-se como um castelo de cartas.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
Jorge Pereira
weapons-o-mal-como-signo-politico-do-desamparoWeapons, cena a cena, mergulha nos braços do horror.