Amor à Segunda Vista questiona como seria se não tivéssemos conhecido a pessoa com quem partilhamos a vida
Depois de ter estreado nas longas metragens em 2012 com Comme des frères, Hugo Gélin deu nas vistas em França e Portugal por coescrever com Ruben Alves o argumento de A Gaiola Dourada.
Agora o cineasta regressa com Amor à Segunda Vista (Mon Inconnue), uma comédia romântica onde seguimos Raphael (François Civil), um autor de best-sellers casado há dez anos com Olivia (Joséphine Japy). O casamento já viu melhores dias e após uma grande discussão, Raphael acorda numa vida paralela onde é solteiro, jogador de pingue-pongue e professor do ensino secundário, com uma vida pouco interessante e demasiado colada à do seu melhor amigo de infância. Percebendo que Olivia era tudo para si, Raphael terá de fazer o impossível para reconquistar o amor da sua vida – que neste mundo não faz a mínima ideia de quem ele é.
De passagem por Lisboa na Festa do Cinema Francês, Hugo Gélin falou ao c7nema sobre as origens deste projeto onde quis ser romântico, mas entregar igualmente uma boa dose de humor. Na conversa ficamos ainda a saber alguns detalhes do novo filme de Ruben Alves, Miss, onde Gélin é produtor.
Vamos começar pelas influências deste Amor a Segunda Vista. Onde se inspirou?
Particularmente, tive a influência anglo-saxónica. Creio que eles fazem muito bem este tipo de filmes. Inspirei-me no que de melhor marca este género, tentando fazer algo universal. Não é um filme francês, nem tão pouco Europeu. Esse era o primeiro objetivo, criar uma história verdadeiramente universal. O segundo objetivo era ter um tom visual, uma direcção artística longe da normalmente presente nos filmes francófonos, abrindo assim a porta aos espectadores para outras imagens.
É um filme muito romântico. O Hugo é um romântico?
É curioso, existe sempre a ligação dos franceses ao romance, mas não são eles que fazem as melhores comédias românticas [risos]. Já escrevemos as melhores peças de teatro românticas, alguns dos melhores textos românticos da literatura, mas em termos de cinema, e no que diz respeito a comédias românticas, elas são muito raras. As minhas preferidas desse género são sobretudo inglesas e americanas. Bem, digamos, são sobretudo anglo-saxónicas.
E sim, sou romântico, mas sobretudo desejava misturar a comédia com o romance. Tinha o desejo de contar uma história de amor, mas uma história de amor com humor. As duas palavras – “comédia romântica” – são importantes aqui. O equilíbrio entre os dois elementos é muito importante, pois temos momentos em que estamos agarrados às personagens que gostamos e outros em que nos soltamos e rimos.
E como começou o projeto, como surgiu a ideia?
Surgiu de uma pergunta que me quis fazer, e que podemos fazer quando estamos com alguém ou até somos solteiros, homosexuais ou heteroséxuais, casados ou divorciados. O que aconteceria se não partilhamos a vida com outra pessoa? Será que o nosso caminho na vida muda? Intelectualmente, isso divertiu-me muito em pensar. Depois achei interessante colocar a minha personagem numa vida paralela na qual ele não conheceu a mulher da sua vida. Para mim, acima de tudo, é um filme sobre o olhar que temos sobre a pessoa que amamos. Ou seja, será que olhamos como devemos para essa pessoa? Isso funciona igualmente em termos de amizade, e também está presente no filme.
Como trabalhou com a Joséphine para criar a sua personagem?
Sim, foi muito difícil [risos]. Não, não foi. Primeiro escolhi o François Civil para o papel principal e era muito importante encontrar um casal que funcione no grande ecrã. É algo que na verdade não conseguimos explicar, uma alquimia, verdadeiramente uma química. É como o amor entre um homem e uma mulher, um homem e um homem, ou uma mulher e outra mulher. Não se explica [risos]. Era preciso encontrar essa magia e com a Joséphine encontrei. Entre os dois havia uma espécie de cumplicidade, benevolência e humor. Esse foi o trabalho para o casal.
Já para a personagem da Olivia, foi um trabalho de ganhar confiança, mas também de abandono, ou seja, de a deixar crescer na personagem. É um misto de técnicas e desse abandono. Gosto desse paradoxo, de não falamos muito, não colocamos muitas questões, e nos soltarmos. A Joséphine tinha mais coisas a trabalhar [que o François], nomeadamente o facto de existirem duas Olivias, duas personagens que são a mesma mulher, mas com diferentes sensibilidades. Tivemos de trabalhar nas duas mulheres diferentes que a Olivia se transformou (…) uma mais dependente, outra mais livre, uma pianista famosa. Isso levou a trabalho extra.
Foi coargumentista do A Gaiola Dourada, do Ruben Alves, e produz agora o seu novo filme, o Miss. Pode-nos falar um pouco dele?
Ah, quer segredos em primeira mão [risos]. Sim, sou produtor. Já trabalhamos na Gaiola Dourada, que foi uma experiência genial. O Ruben teve um tempo a escrever uma outra história. Foi complicado gerir o sucesso, não só em Portugal, mas em França e noutras paragens. Foi complicado digerir esse sucesso, mas ele teve tempo para escrever uma outra história que queria que se afastasse muito de A Gaiola Dourada. Ele não queria fazer outro filme sobre os luso-franceses e acompanhei-o nesse novo projeto e ajudei-o como pude. É um filme alegre sobre um problema profundo e duro. É a história de um rapaz que sonha transformar-se numa mulher. E esse jovem vai se inscrever no concurso de Miss França. Não é um filme sobre a transexualidade, mas sobre um homem que busca a sua identidade e que vai viver uma aventura improvável. É uma espécie de “Rocky de saltos altos” no mundo das misses, que é engraçado. Mas é acima de tudo a história de um jovem que quer ser alguém. É uma comédia, mas é profunda na busca de identidade numa sociedade que nos impõe um género ou o outro.
E tem algum novo projeto como argumentista ou realizador?
Tenho dois projetos como argumentista e realizador, uma série, e o meu próximo filme, que comecei a escrever há 4 ou 5 meses.
Uma última questão. Como foi crescer numa família com muitos atores [Maria Schneider, Daniel Gelin, Manuel Gélin, Danièle Delorme e Fiona Gélin]
A Maria Schneider é um caso particular, pois nunca a conheci muito bem. Era a filha “escondida” do meu avô, que só há vinte anos se assumiu. Eram outros tempos [risos]. Por tal, nunca a conheci verdadeiramente. Era minha tia, mas por causa desta história nunca teve impacto em mim. Em oposição, os meus avós, Daniel Gélin e Danièle Delorme, e o Yves Robert, influenciaram-me. Eles eram de tal maneira apaixonados pelo seu trabalho que eu olhava para eles e achava formidável. Mas nunca pensei em ser ator (..) procurei sempre outras coisas dentro desta arte.
É uma sorte ter tido alguém na vida como o meu avô Daniel, um homem muito engraçado até ao fim da vida. Uma das pessoas mais jovens [no pensamento] aos 80 anos que encontrei ao longo da minha vida. Ele trabalhou em Portugal. Quando lhe apresentei o Ruben, que conheço desde a pré-escola, ou seja, há 35 anos, ele disse logo que uma das grandes experiências da sua vida – e ele tinha filmado com o Hitchcock e o Max Ophüls – foram as filmagens em Portugal de Os Amantes do Tejo, que tinha a Amália Rodrigues. Ele tinha um verdadeiro amor por Portugal. Eu também sou próximo do país, conheço o Ruben e venho cá frequentemente. Existe assim esta espécie de transmissão de gosto [do meu avô para mim].

