Um dos grandes dons da Quinzena de Cineastas este ano foi conseguir agarrar alguns títulos que em circunstâncias naturais estariam na corrida à Palma de Ouro ou desaguariam na secção Cannes Première. O novo trabalho do israelita Nadav Lapid está certamente nesse grupo, dispensado da Palma provavelmente devido ao conflito israelo-palestino que se acentuou após o ataque do Hamas a 7 de outubro. “Miroirs No. 3”, do germânico Christian Petzold, certamente não falhou a corrida à Palma de Ouro por questões políticas, mas a verdade é que, provavelmente, o realizador de “Bárbara” e Phoenix” preferiu estrear na Quinzena dos Cineastas, que na secção Première.

Especulações à parte no que concerne à razão porque este ou aquele filme concorreu ou não ao prémio máximo do Festival de Cannes,  podemos dizer que dentro da grandeza do cinema de Petzold, “Miroirs No. 3”  pode ser olhado como “menor”, mas isso não significa que seja um fracasso, bem longe disso. Aqui o “problema”, que nem sequer é problema, é a excelência de um conjunto de obra que a cada novo lançamento exige (no mínimo) uma força similar ao que já foi produzido anteriormente. Comparado com o passado de Petzold, “Miroirs No. 3” não tem a complexidade e potência habitual demonstrada pelo seu cinema,  mas isso não significa que não tenha mais virtudes que fragilidades.

Depois de sobreviver a um acidente de viação numa estrada rural que vitimou o namorado,  uma jovem pianista, Laura (Paula Beer), está fisicamente bem, mas mentalmente abalada. Na verdade, ainda antes do acidente acontecer, a mulher já parecia sofrer de um mal-estar existencial e alienação com algo, coisa que Petzold esconde do espectador porque a sua intenção e foco são outros. E esse foco está em quem socorreu Laura no acidente, Betty (Barbara Auer), uma mulher que vive à beira de uma estrada no meio de nenhures e que se dispõe a ajudar a acidentada, oferecendo mesmo a sua casa (e roupa) para Laura ficar lá alojada. Entre as duas nasce uma relação onde o afeto ganha suma importância, mesmo que o ex-marido de Betty e o filho se preocupem com a chegada de Laura e a posição na vida de Betty que ela começa a ter.

Tal como “Eleanor The Great”, “Miroirs No. 3” segue por vias em que o trauma e o luto são a chave para a criação de realidades paralelas e atos de substituição no campo dos afetos, tudo como resposta a dores e vazios imensuráveis. Petzold, numa quarta colaboração com Paula Beer [Transit (2018), Undine (2020), Afire (2023)], que se tornou uma espécie de musa depois de Nina Hoss, joga com a expressividade da atriz e as omissões em relação ao seu passado para nos entregar uma personagem críptica ao serviço de um puzzle enigmático sobre duas personagens marcadas pela dor. Já sobre Betty, o realizador é mais explícito, principalmente perante as reações de silêncio e de preocupação com a presença de Laura  que o marido de Betty, Richard (Matthias Brandt), e o filho Max (Enno Trebs), demonstram.

No final, e com menos de hora e meia de duração, “Miroirs No. 3” (referência à terceira de cinco peças para piano compostas por Maurice Ravel entre 1904 e 1905) é acima de tudo um filme simples e austero, mas sempre eficaz e elegante. Ou seja, um Petzold é sempre um Petzold, mesmo que retire o pé do acelerador emocional.

Texto originalmente escrito em maio 2025

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
miroirs-no-3-christian-petzold-regressa-com-drama-simples-e-eleganteCom menos de hora e meia de duração, “Miroirs No. 3” é acima de tudo um filme simples e austero, mas sempre eficaz e elegante.