De todas as formas de perder uma pessoa, a morte é a mais simpática”, ouve-se em “Invention”, uma colaboração entre a realizadora Courtney Stephens e a atriz/cineasta Callie Hernandez, que ficcionam o rescaldo da morte do pai de Hernandez através de um híbrido que não se cansa de colocar em cena o arquivo real de várias aparições televisivas que o pai de Hernandez fez entre 1990-2020, tudo para adornar uma história de descobertas – do outro e de si mesma – com várias camadas de mistério para desfiar.

A sua conversa com um agente de execução (James N. Kienitz Wilkins) para lidar com a “herança” é a primeira entrada de Callie Hernandez no estranho mundo do pai, um homem dedicado à medicina alternativa que deixou como legado um aparelho patenteado que promete curar doenças através do eletromagnetismo. A FDA (Food and Drug Administration) não validou o dispositivo e retirou-o do mercado, mas uma série de personagens com que Callie vai convivendo, descobrindo assim mais sobre a estranha figura do pai, de quem estava afastada, validam a genialidade e bondade do homem, que entrou numa rota conspiracionista, explicada por quem o conhecia pelo obstáculos que teve de enfrentar quando lançou o seu produto.

Apesar da dinâmica do filh@ afastad@ do pai e que regressa a uma pequena localidade para lidar com o seu óbito ser algo bastante pontuado no cinema por uma certa nostalgia (veja-se  “Garden State” ou “Elizabethtown“), “Invention” prefere o críptico e deixa a sua marca pessoal por nunca querer obter ou entregar respostas concretas, fazendo nesse processo o espectador permanecer num limbo, tal como Callie, entre o que é verdade ou mentira, paranoia ou realidade. 

É que Callie afigura-se como uma mulher muito longe de qualquer crença mística ou “alternativa”, por isso a sua viagem ao mundo do pai é quase como uma visita à toca de Alice no País das Maravilhas, o que de certa maneira me levou – além da estética – a “The Sweet East(A Doce Costa Este), uma das maiores surpresas do Festival de Cannes em 2023, e que refletia, de um jeito muito peculiar, como a falência ideológica e a desilusão se transformaram em sementes para a dúvida e uma busca da “verdade” fora dos campos tradicionais; seja no reino da ciência, seja no místico, seja na esfera pessoal, social ou política. E a figura do pai de Callie, um homem nascido no seio das Testemunhas de Jeová, antes de viajar por outros tipos de crenças que fugiam do estabelecido por um qualquer “eles”, acaba por ser também a viagem desta mulher na procura de um homem que não reconhece e que ninguém a ajuda a descobrir com a mais sensata lucidez.

Apoiado por vídeos de arquivo e uma ficção filmada em Super 16mm, “Invention” tem na sua fotografia e montagem ferramentas que adensam o clima de suspeição sobre tudo e todos, transformando assim o espectador num cúmplice da protagonista na busca de uma verdade que sabemos que nunca vai encontrar.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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