Mais conhecido como colaborador na direção de fotografia de filmes de cineastas como Alex Ross Perry (Listen Up Philip), Abel Ferrara (Zeros and Ones) e da dupla Josh & Benny Safdie (Good Time), o norte-americano Sean Price Williams estreou-se na realização de longas-metragens com “The Sweet East(A Doce Costa Este), uma das maiores surpresas do Festival de Cannes em 2023, inserido na secção paralela do festival, Quinzena de Cineastas (antiga Quinzena dos Realizadores).

Fazendo um retrato tão assustador como hilariante da polarização – política e religiosa  – dos EUA nos tempos atuais, onde o fantasma de Trump atormenta os democratas, e prepara o seu comeback para a presidência já em 2024, Sean Price Williams, com a colaboração de Nick Pinkerton no argumento, coloca no epicentro deste vulcão cinemático em plena erupção uma espécie de Alice que vai entrar num “País das Maravilhas e Tristezas” que servem de toada para a diversidade ideológica no território Yankee- da política à religião, passando pela arte e sociedade. Alice, aliás, Lillian (Talia Ryder, impecável), a nossa protagonista, vai  – em quatro momentos demarcados por separadores indicativos dos estados norte-americanos e uma citação – saltar de uma realidade para outra. 

Jovem em fuga de um namorado abusivo, Lillian começa por conviver com um bando de ativistas e artistas (ou ‘artivistas‘, como sugere uma personagem), mas rapidamente faz um novo “salto” e vai de encontro a uma festa privada de supremacistas brancos, daqueles que têm edredons com o símbolo nazi, Estes são transportados para o grande ecrã, principalmente, através da figura de Lawrence, um professor universitário atípico, longe dos clichés rednecks ou da Alt-right a que estamos habituados a ver no cinema e TV. Tal como o fez em “Red Rocket”, Simon Rex agarra numa personagem desprezível (um racista) e com a ajuda do guião começa a acrescentar idiossincrasias, até poéticas poéticas, capazes de criar uma empatia que agonia o espectador. Quem não se deixa levar por isso é Lillian, que aproveitando uma distração ou excesso de confiança por parte de Lawrence “dá um novo salto” com a ajuda de uma dupla de afro americanos pronta a levá-la para o casting de um filme. Mas o passado e as ações da mulher vão perseguir a jovem e, após um massacre regado a gore num set de cinema ela é forçada – mais uma vez – a mudar de estado e vai agora, de forma incógnita, pernoitar num rancho comandado por um grupo de muçulmanos amantes de música eletrónica (isso mesmo). Tudo isto antes de acabar a sua alucinante jornada pelas americanos num mosteiro perante um monge ímpar, após mais algumas confusões em que se mete pelo caminho.

Como o argumentista explicou em Cannes, cada estado norte-americano e cada ideologia retratada individualmente não é muito diferente daquela do universo Star Wars, em que viajamos de planeta em planeta, com cada um deles como regras muito diferentes.À memória também vem o filme “Interstate 60”, onde um jovem (James Marsden) com dúvidas sobre seu futuro faz uma viagem final pela América e aprende lições valiosas a partir de uma variedade de personagens estranhas e locais que vai parando.

Fascina a abordagem não-binária das personagens que a jovem vai conhecendo pelo caminho, mas é ainda mais interessante observar a sua transformação progressiva. Aparentemente, ela começa com toda a ingenuidade, mas termina como mestre da arte da manipulação, uma resposta clara aos sucessivos universos com que vai ser confrontada.

E no meio disto tudo, Sean Price Williams assina um dos títulos mais curiosos da edição 2023 do Festival de Cannes.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/qyg3
Pontuação Geral
Jorge Pereira
the-sweet-east-lillian-no-pais-das-maravilhas-e-tristezasUma das maiores surpresas do Festival de Cannes em 2023