Berlim é casa de Karim Aïnouz há já algum tempo — o suficiente para, sem perder as raízes cearenses, começar a perceber como a Europa olha para o mundo, com as excentricidades próprias do Velho Continente e as idiossincrasias de um território marcado por conflitos de classe. Rosebush Pruning, apresentado no sábado passado na competição pelo Urso de Ouro, transporta muitos sinais dessa vivência.
O elenco reúne Pamela Anderson, Callum Turner, Jamie Bell, Elle Fanning, Riley Keough, Lukas Gage, Elena Anaya e o dramaturgo Tracy Letts. Ambientado numa mansão na Catalunha, o filme acompanha uma família norte-americana privilegiada e excêntrica, mergulhada em conflitos absurdos. Jack, Ed, Anna e Robert vivem isolados do mundo, sustentados por uma fortuna herdada. Ignoram as exigências do pai cego e procuram amor e validação entre si, enquanto se ocupam das mais recentes peças de alta-costura. Quando Jack, o irmão mais velho e eixo central da família, anuncia que vai abandonar o pai e os restantes para viver com a namorada Martha, os laços de sangue começam a implodir. Ed descobre gradualmente a verdade por detrás da misteriosa morte da mãe. Mentiras vêm ao de cima, a família desagrega-se brutalmente e as personagens mergulham numa espiral de violência.
Recém-chegado aos 60 anos, Karim apresenta Rosebush Pruning numa Berlinale diferente daquela em que exibiu Praia do Futuro, com Wagner Moura e Jesuíta Barbosa, há 12 anos. Parece haver hoje maior abertura à ousadia e à liberdade. “Talvez seja o mais veterano num grupo de novos talentos”, afirmou ao C7 o realizador brasileiro, que apresentou em Berlim dois documentários: Nardjes A. (2020) e Aeroporto Central (2018), este distinguido com o prémio da Amnistia Internacional. Em 2022 regressou como jurado, num painel presidido por M. Night Shyamalan. Nos dois anos seguintes, 2023 e 2024, competiu em Cannes com Firebrand e Motel Destino.
Na conversa que se segue, Karim Aïnouz analisa a sua incursão numa aristocracia marcada por vícios patriarcais históricos.
Como foi a imersão nessa família fraturada, numa narrativa que não rejeita ser sensual?
É curioso, não os vejo como uma família disfuncional, porque as famílias, por definição, são construções inevitavelmente imperfeitas. Somos obrigados a conviver com pessoas com quem nem sempre temos afinidade, apenas por existirem laços de sangue. Neste filme encontro antes uma família fraturada. A fratura é mostrada com verniz, não com estilhaços, percebes? Tenho ouvido dizer que o filme é bonito. Talvez o seja porque exponho o que há de feio no mundo de outra forma. Se há sensualidade, ela nasce do retrato das relações entre pessoas — e isso implica desejo. Aqui, o desejo cruza-se com o perverso. Ainda assim, gosto profundamente destas personagens. Cheguei a perder três colaboradores durante o processo porque rejeitaram estas figuras. Uma montadora disse-me: “não quero montar este argumento, estas personagens são abjetas”. Fiquei surpreendido, porque vejo algo de intensamente sensual numa família que consome moda, que discute banalidades, onde o desejo entre pais e filhos se torna sufocante.
Tendo o argumentista Efthimis Filippou raízes gregas, é inevitável pensar na tradição trágica da Grécia antiga. Em Rosebush Pruning, essa herança parece emergir na metáfora dos lobos. Até que ponto considera predatório o universo que rodeia estas personagens?
Eles pertencem a um mundo de acumulação. É o capitalismo tardio, a normalização da concentração de riqueza, o isolamento como regra. Na conferência de imprensa, Tracy Letts foi claro ao falar da forma como o poder deforma tudo. O abuso do corpo do outro, presente na narrativa, é um traço do fascismo que se reinventa dentro do sistema financeiro contemporâneo. Quando olho para os multimilionários, sinto que há algo espiritualmente devastado ali. Parece que deixo de ver um ser humano. Ainda assim, não faço juízos morais simplistas. O patriarcado é tóxico, mas ninguém nasce assim; as pessoas tornam-se assim. Penso muitas vezes em Henrique VIII, que retratei em Firebrand: um rei que se convence de que é escolhido por Deus e usa isso para legitimar as suas obsessões. O pai interpretado por Tracy segue esse caminho. Torna-se um monstro. E quem o rodeia torna-se presa.
O que trouxe Tracy Letts de mais determinante para Rosebush Pruning?
Ele consegue humanizar um vilão. Disse-me: “Não me preocupa tanto representar o que ele faz aos filhos; preocupa-me mais a forma como ele anda a cavalo”.
O que altera Rosebush Pruning na sua perceção do seu lugar no cinema?
Gosto de fazer filmes. Gosto de contar histórias. Há coisas que quero partilhar e o cinema é o meio. Depois desta longa-metragem, quero fazer um filme em língua portuguesa. Este projeto reúne um elenco muito conhecido, de vários países. Isso permite-me levar a nossa forma de fazer cinema para um público mais vasto. Recorda-me o que aconteceu em Hollywood nos anos 40, quando realizadores europeus, muitos deles alemães a fugir da Segunda Guerra Mundial, trouxeram novo fôlego a um sistema rígido de estúdios. Sinto algo semelhante. Trabalhar dentro de uma estrutura implica exigências, restrições, a questão da língua. Ainda assim, foi o filme que mais prazer me deu fazer. Espero continuar nesse caminho.
Este elenco de grande visibilidade — incluindo um dramaturgo — coloca o filme noutro patamar?
Coloca-me perante a possibilidade de alcançar mais público do que nos projetos anteriores. Isso traz responsabilidade. A dimensão internacional implica outra exposição, outra expectativa. Rosebush Pruning ainda está a iniciar o seu percurso, mas tenho a sensação de que poderá ser um dos meus filmes mais acessíveis.


