Não, não é conversa de lunático terraplanista ou conspiracionista com apetência para atacar Bill Gates. A geoengenharia, a intervenção deliberada, em pequena ou grande escala, no sistema climático da Terra, é um work in progress e este documentário da finlandesa Tuija Halttunen observa e analisa a questão, quer na sua vertente científica, quer ética, neste seu  “How to Kill a Cloud?”, exibido no CPH:DOX.

Em foco está a cientista Hannele Korhonen, também ela finlandesa, que recebe 1,5 milhão de dólares dos Emirados Árabes Unidos para a concretização de um projeto que para muitos está entregue às mãos dos deuses: fazer chover no deserto.

Mais que a preocupação se é o não possível fazer isto, o documentário foca-se no preço a pagar, ecológico, ético e moral, nesse processo científico de “matar uma nuvem”, ou seja, acrescentar-lhe partículas de maneira a provocar a sua dissolução, provocando a queda de chuva. 

Ainda antes de embarcar nesta aventura, cercada de reuniões, visitas ao terreno e eventos de promoção e networking à sua ação, vários dilemas afiguravam-se perante Korhonen, que põe em causa a própria ligação àquele país, pois afinal de contas o tema dos direitos humanos e o tratamento aos migrantes na região muitas vezes é apresentado de uma maneira que vai contra os seus valores. Felizmente, quando chega à região, ela surpreende-se com a presença de mulheres a trabalhar em altos cargos. Escassas, como as nuvens no deserto, mas presentes.

Poderiamos entrar aqui numa análise mais cuidada ao velho conto “faustiano” de Goethe, tal a semelhança de pensamentos que ecoam na mente da cientista, que inevitavelmente quer escapar à ciência aborrecida. Poderemos (e devemos) mexer na natureza, mesmo que seja para a equilibrar? E quem nos financia nas nossas experiências? Quais as suas intenções?

Mais que respostas,  “How to Kill a Cloud?” impõe questões, cobrindo a cineasta uma viagem de observação durante 3 anos de alguém que numa jornada científica está preocupada com os usos que as as suas descobertas poderão ter. Um sentimento comum no mundo da ciência, a que não escaparam nomes como Stanislaw Ulam, um dos principais responsáveis pela bomba de hidrogénio que tantos dilemas criou na sua persona.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
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