No dia a dia, todos nos movemos por decisões instantâneas, tomadas a partir de uma série de cenários e equações. Quando saímos de casa, não vá o diabo tecê-las (o desconhecido, o inesperado, o absurdo), fechamos o gás, a água e muitas vezes a eletricidade. Ou quando atravessamos uma estrada, olhamos para cada um dos lados estudando hipóteses que podem sugerir graus de perigo, ou a ausência dele. Ou quando escrevemos um texto, existe a decisão de que palavras colocar. Esse compreender, ponderar, julgar e decidir em milissegundos, define cada momento da nossa vida.
Os filósofos racionalistas opõem a razão à imaginação, a qual está sempre presente através de imagens, ideias, conceções e visões de um indivíduo ou de um coletivo para expressar a nossa relação de alteridade com o mundo. Se adicionarmos o trauma e a baixa autoestima, derivada de anos e anos de abusos psicológicos, é invariável pensar que a poderação de qualquer situação está carregada a negro nas vozes interiores que tentam evitar qualquer nova sensação de dor e tristeza.
Violet, uma executiva de um estúdio de cinema, tem permanentemente em si – consequência de uma infância castradora e redutora na sua existência – uma voz interior que a leva a tomar, frequentemente, decisões erradas, sejam elas no seu contacto com a família, colegas, ou questões sentimentais. Além das vozes interiores, a nossa jornada diária é marcada por outras: a grupal de uma sociedade que nos condiciona, e que no caso de Violet a objetifica, reduzindo (ou limitando) as suas qualidades e campos de ação. É por isso que entre dramas familiares, relacionais e laborais, no meio de vozes interiores distintas, e coletivas castradoras, que Violet vive repleta de dúvidas entre o que deseja e o que faz, sempre com o medo e a desconfiança na equação.
O cinema já aplicou algumas vezes a tomada de decisões entre um jogo de lógica e emoções, muitas vezes na forma de um tribunal mental onde confiança, perseverança e força colidem com o pavor do falhanço, que muitas vezes trava a progressão e resolução. O próprio filme “Divertida-Mente”, da Pixar, mostrava isso, e, ao seu jeito, também “As Vozes”, de Marjane Satrapi, embora o espectro da sanidade mental fosse muito mais vincado.
O que fascina neste “Violet” é o arranjo sensorial soturno, claustrofóbico e penetrante com que a estreante na realização Justine Batman decide contar a sua história, quase numa forma de sketches de situações e decisões avulsas, que mostram o sufoco mental e a permanente repressão a que a protagonista (e todos nós) está sujeita. Faz lembrar, também ao seu jeito, o que se viu em “Swallow“, há dois anos, ou “Ted K” já em 2021.
É que essa voz na cabeça de Violet ecoa pelas artes da narração de um aterrorizante Justin Theroux, isto enquanto, simultaneamente, através de palavras implantadas na tela sobre a ação (imagem real), tomamos conta dos seus desejos. E cada cena, em que ela acede à voz da sua mente, é encerrada por um claustrofóbico filtro rosa-vermelho e efeitos sonoros neuróticos que fecham os capítulos individuais da decisão.
Toda esta dinâmica de apresentação da narrativa (estética, som e texto) centrada em decisões individuais, é ainda complementada com a observação concreta do mundo em que circulam todos aqueles que cercam Violet; sejam elas figuras do passado, que se quer distante, ou do presente, que se quer diferente.
Tudo isto transforma “Violet” num objeto complexificado, que muitos dirão confuso de seguir pela invasão sensorial a que somos acometidos a cada 24 frames. E pensando no mercado português, se adicionarem eventualmente legendas, a experiência ainda será mais caótica.
Mas um filme não pode (ou não deve) deve ser pensado na sua forma crítica e artística como objeto de mercado (onde o que movimenta a sua qualidade é o lucro que gera). Por isso mesmo, quer concetualmente, quer na sua forma final, “Violet” é um dos filmes mais desafiantes de 2021, podendo mesmo tornar-se um pequeno objeto de culto.
Deixei para o final a referência à presença de Olivia Munn no principal papel, naquela que facilmente é a sua melhor e completa prestação no cinema, e para a banda-sonora, onde o tema “Uncertain“, de Mélanie Laurent e Damian Rice, entranha-se em nós de forma avassaladora, ajudando-nos a caminhar ao lado de Violet no seu sinuoso caminho.



















