Se o belíssimo “E Agora? Lembra-me” faz um autorretrato de Joaquim Pinto e da sua convivência com o HIV e Hepatite C, confrontando a sua mortalidade, e “Feast” explora o corpo queer debilitado por um crime através de múltiplas camadas existenciais, filosóficas e cinematográficas, ou ainda obras-primas como “Before We Go” interligam as fragilidade humanas, a morte e a arte, “Agate Mousse” prostitui o seu objeto para alegadamente partir para uma avaliação sobre morte e renovação (dele, do Líbano, da arte) que não faz mais que disparar referências e criar belas imagens (quem é que não as consegue hoje em dia, pergunta Sokurov?) que se dizem reflexivas e filosóficas.

Mourad descreve o seu filme como “uma ode à vida, uma exploração da morte e do renascimento, um poema sobre o cinema” e “à sua maneira, na forma e no conteúdo, uma visão do futuro antes do seu tempo e um lembrete da luz essencial que nunca se deve esquecer durante os dias mais sombrios”, mas o que assistimos durante os escassos, mas infinitos 70 minutos de duração, é um exercício meta de auto-fascínio e auto-prolfaça, tudo misturado num ensaio/instalação que quer ser vista de forma política, territorial, intima e até de análise ao processo cinematográfico, mas que não é mais que um isco premeditado para festivais de cinema e galerias de arte sedentas por mostrar novas vozes, mesmo quando estas não tenham para dizer além da repetição. Que coisa tão 2010!

Na verdade, este pseudo-filme-ensaio num corpo de longa-metragem em competição no Festival de Roterdão é a instalação final da trilogia Linceul de Mourad, precedida pelas curtas-metragens “Linceul” (2017) e “Cortex” (2018). 

Tentando me manter sóbrio e calmo nestas últimas palavras (pois já gastei demasiado português e tempo nelas), “Agate Mousse” começa com Mourad a descobrir um caroço no testículo que o farão confrontar a sua existência perto da dissolução. O que segue, já enervadamente descrito acima, é uma exposição rotineira de referências disparadas através do texto, direção artística e fotografia, que vão de Foucault a Chris Marker, à Nouvelle Vague e até pinturas (como “Jovem Nu Masculino Sentado ao Lado” de Hippolyte Flandrin Mar).

É este lado esquadrinhado algoritmicamente – pois, como sabemos, grita-se Godard, Truffaut, Daney, Foucault, Deleuze e “Queer Art” e os festivais de cinema compram imediatamente – que torna esta produção num nado-morto jactante de oportunismo circular sem nada para acrescentar.