Invadidos por um cinema energético e normalmente espetacular, que se preenche de arranha-céus, casinos e centros financeiros, a perceção do espectador sobre a riqueza e fartura de Hong Kong não podia estar mais distante da realidade. A verdade é que esta antiga colónia inglesa, devolvida à China em 1997, apresentava 20 anos depois desse ato o maior fosso entre ricos e pobres em quase meio século, com perto de um milhão de pessoas na pobreza.
É a partir destes números que “Drifting” constrói-se, dando uma imagem bem diferente de um território que muitos tomaram consciência, tarde demais, que precisava de um abanão através dos motins que assistimos no ano passado. E apesar desses confrontos não surgirem neste filme de Jun Li, eles são mencionados numa cena e estavam a decorrer em paralelo às filmagens.
Tudo começa com Fei, um homem que acaba de sair da prisão – mais uma vez – e que se dirige para uma área onde os sem-abrigo habitam, sem eira nem beira. Toxicodependente, tal como outros que com ele partilham o espaço, a sua estadia é interrompida a meio da noite pela polícia que, além de os afastar dali, coloca os seus escassos pertences no lixo. A história é baseada em factos reais ocorridos em 2012, e nos momentos que se seguem à intervenção policial, estes homens – incitados e ajudados por uma jovem assistente social – decidem agir judicialmente contra o governo.
Desenganem-se, porém, se pensam que vamos assistir a um típico filme de tribunal de busca incessante pela justiça, pois o foco do cineasta continua a ser a vida destes homens, cujo estatuto está algures entre o de auto-exilados de um sistema capitalista selvagem onde não se revêem, a renegados pelo mesmo por não contribuírem para o seu crescimento e vigor.
No processo de construção da sua narrativa e estética, Jun Li faz um contraste arrojado entre os arranha-céus luxuosos e as pequenas construções improvisadas sob os viadutos, visando ainda a história pessoal destes homens e mulheres, marcados por decisões infelizes que tomaram ao longo dos tempos. O próprio Fei admite isso numa cena onde “explica” que, além da óbvia dependência química que tem em relação às drogas, estas ajudam-no a encurtar os dias e fazer o tempo passar mais rapidamente, diminuindo assim a dor que sentem a toda a hora, pelas memórias do passado e ver no que se tornaram.
Nota-se assim, tal como Chloé Zao faz no seu cinema, ou Ken Loach no seu realismo e observação de classes, um interesse particular do realizador pelas gentes periféricas e à margem de uma sociedade que se diz abastada, mas esconde “debaixo do tapete” (ou viadutos) as imagens e marcas acentuadas da sua pobreza. Mas onde Zao aplica uma linguagem carregada de observação documental, e Loach camadas explícitas de crítica social e política, Jun Li prefere o território do humanismo, fazendo um olhar particular caso a caso, mas simultaneamente vislumbrando todos estes marginais como um coletivo tristemente unificado pelas circunstâncias, e apagado dos postais turísticos.



















