Marie Curie é uma das figuras científicas – mulher ou não – mais celebradas da história, pelos gigantescos contributos que teve na revolução das ideias da primeira metade do século XX. Ainda assim, quem visse “Radioativo” julgaria que Curie era alguma mente brilhante esquecida e menosprezada, cujo trabalho a maioria das pessoas desconhece. Jack Thorne, guionista, e Marjane Satrapi, realizadora, partem do preconceito de que a audiência é uma tábua rasa sem o mínimo de conhecimentos sobre Curie ou a radioatividade, desperdiçando longos trechos deste filme com diálogos expositivos e educacionais que informam o espetador como um artigo da Wikipédia, mas mais colorido. Simultaneamente, colocam personagens a fazer declarações (como “Deve ser tão difícil ser mulher e fazer tudo aquilo que tem feito.”) que denunciam a falta de confiança do filme na sua própria mensagem.
É o défice de subtileza e a insegurança quanto à inteligência do público que fazem esta obra muito mais aborrecida do que poderia ser. Satrapi, escritora de romances gráficos como “Persepolis“, que também adaptou ao cinema, já provou o quão irreverente, original e cómico o seu trabalho consegue ser. O estilo visual de “Radioativo“, embora recorra à ideia mais óbvia tendo em conta o tema (as cores luminescentes derivadas do Rádio), manifesta o quão criativa e cativante a sua abordagem pode ser. Sendo o filme uma adaptação de outro romance gráfico, da autoria de Lauren Redniss, esta é uma oportunidade desperdiçada para inovar a fórmula do biopic, hoje tão em voga, a partir do estilo e da montagem característicos desse género literário.
Todavia, a realização de Satrapi distingue-se pelo ritmo com que filma a vida de Curie – o passo rápido com que percorre as várias fases do trabalho e das relações pessoais da cientista permite-lhe não só ter um olhar mais global, como espelha a agilidade mental da protagonista, seguindo assim o filme a velocidade do seu raciocínio. A realizadora revela também uma economia notável na caracterização das personagens, conseguindo imbuí-las de individualidade em escassas cenas. Esse mérito é partilhado pelo elenco, liderado por Rosamund Pike no papel principal e por Sam Riley como Pierre Curie, ambos em atuações vivas e ousadas.
O romantismo típico de Satrapi dá ainda alguns sinais de vida ao longo de “Radioativo“, mas destoa com o olhar severo sobre o trabalho de Curie. Os rodopios sentimentais pela rua ou os repentinos beijos apaixonados parecem infantilizar o que, de resto, é um retrato duro da vida e das descobertas desta cientista, que não sai mistificada por ele. Esse julgamento realista é provavelmente o fator que mais afasta esta biografia dos seus pares, ao refletir sobre as implicações futuras da ciência como instrumento político (leia-se, de poder). O potencial do Rádio é entrevisto por Curie e por muitos outros cientistas, tanto para o bem como para o mal. Como tal, no filme assistimos aos diversos eventos históricos que, de uma maneira ou outra, foram possibilitados pelo trabalho de Curie, como as bombas atómicas, o desastre de Chernobil ou a radioterapia.
Essa tentativa de entrever as consequências das descobertas científicas, ainda que provocadora, acaba por responsabilizar Curie tanto pelos horrores como pelos prodígios viabilizados pela radioatividade. Essa visão redutora e simplista da ciência e da história acaba por ser o principal argumento de Radioativo, que assim falha na sua tentativa (bem-vinda) de dar vida ao biopic.



















