Sonic – O Filme: falta de ambição e rotina impedem ouriço de brilhar

(Fotos: Divulgação)

Nem a velocidade de Sonic consegue ultrapassar o guião rotineiro

Se Ace Ventura tivesse um irmão demoníaco com inteligência superior, provavelmente ele seria o Dr. Ivo Robotnik (Jim Carrey a fazer de Jim Carrey), o vilão deste filme de aventuras de travo extremamente familiar, que transporta o ouriço azul das consolas para o grande ecrã com a eficácia de qualquer filme domingueiro.

Convém lembrar que começou da pior maneira a construção desta adaptação, com o realizador Jeff Fowler (nomeado ao Oscar de melhor curta de animação por Gopher Broke) a ter de fazer horas extra e aplicar uma “extreme makeover” em Sonic após os fãs da personagem invadirem as redes sociais em fúria por causa do aspeto selvagem do ouriço no primeiro trailer lançado em abril do ano passado.

Seguiram-se meses intensos de pós-produção, de ajustes no design, para “melhorar” visualmente este Sonic, que agora surge no grande ecrã mais próximo da imagem dos videojogos, mas com a adição de um olhar meloso de fofura extrema a lembrar Bambi, o Gato das Botas e mais recentemente o Baby Yoda. Esta “fofura estética“, que certamente vai render mais milhões em merchandise do que neste episódico filme para cinema, alegrou de tal maneira os fãs – pois o estúdio ouviu os seus lamentos – que agora eles juram fidelidade e prometem invadir as salas.

A ver vamos até onde vai essa alegria, pois se visualmente certamente sairão satisfeitos, embora se esperasse mais dos mundos além Terra, tudo o resto nesta adaptação é demasiado (re)visto, pouco original e nada arrojado para eles efetivamente saírem da sessão com boas memórias.

A verdade é que o que este Sonic entrega é uma boa dose de entretenimento moldado e remoldado em test screenings, farta nostalgia e sentimentalismo, vincando no seu subtexto que por mais dons, poderes e capacidades que tenhamos, precisamos sempre de algo ainda mais importante: os amigos e a família.

E tudo o que este Sonic quer é um amigo, figura que encontra num xerife de uma pequena cidade do Montana (James Marsden em piloto automático), que ambiciona seguir com a mulher para São Francisco, mas que “tropeça” na criatura azul e é arrastado para uma aventura cujo maior perigo vem do já citado Dr. Ivo Robotnik. Interpretado por Carrey, daquele modo excêntrico que caracterizou o início da sua carreira, esta figura maligna e “sobredotada” (é tão esperto que tenta travar o carro de Sonic numa estrada com um arpão?!) tudo vai fazer para capturar o ouriço, o qual terá de recuperar os anéis que permitem navegar entre diferentes mundos.

Não se esperava muita profundidade por aqui, e sabíamos que o grande alvo em termos de público era capturar a atenção da faixa infanto-juvenil (que poderia por sua vez arrastar uma geração de nostálgicos que também conheciam o produto), mas ainda assim esperava-se um pouco mais de um filme que em momento algum surpreende e que cai numa rotina de procedimentos (e de humor corriqueiro) que culmina com a apresentação de uma outra personagem deste universo, que provavelmente veremos numa sequela feita a toda a velocidade.


Jorge Pereira

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