Acompanhando a história do tristemente famoso “caso Dreyfus”, um escândalo político ocorrido na França no final do século XIX, onde o capitão do exército francês de origem judaica, Alfred Dreyfus (Louis Garrel), foi injustamente condenado por alta traição, Polanski desconstrói um novelo conspirativo que põe em xeque os “tribunais populares” e as hierarquias de poder e previlégio.

E Polanski não evita em dizer nas mesmas notas de produção que encontra muitos momentos na história de Dreyfus que ele mesmo “experienciou” na sua vida, especialmente a “perseguição”, os procedimentos de “condenação” e a “negação dos factos”. Mas se todos fazem uma ligação automática da “injustiça” retratada no filme aos seus problemas com as autoridades norte-americanas (caso Samantha Geimer), a verdade é que essas palavras estão mais orientadas para outros momentos da sua vida, como a infância, onde foi perseguido pelos nazis por ser judeu, e posteriormente, na Polónia, como jovem cineasta a tentar vingar em terreno Estalinista.

A questão da “perseguição”, a “crucificação” de alguém sem grande investigação, mais que a “injustiça”, ressoa neste jogo mental que o espectador faz na relação autor-obra, carregando a personagem de Georges Picquart (Jean Dujardin exemplar) a aura de firmeza e busca pela justiça, doa a quem doer.

J’Accuse começa com gritos de fúria e rostos absortos na mais obscura das humilhações. Numa cerimónia militar de vexação, Dreyfus (Louis Garrel sob forte caracterização) é presenteado com a retirada dos elementos que o ligam ao exército francês. A assistir a este triste espectáculo, de verdadeiro “assassinato” militar e social, uma multidão em fúria grita palavras de ordem contra o vil traidor. Houvesse pena de morte na época, e esse teria sido o seu destino.

E esse é apenas a primeira parte do calvário de Dreyfus, já que se segue o desterro por mais de uma década num pedaço de rocha da Guiana Francesa simpaticamente apelidado de Ilha do Diabo. Nesse local, que pela escassa janela com grades de Dreyfus parece paradisíaco, ele é o único preso, isto numa cela onde os próprios detentores o atormentam com um silêncio avassalador e acções de verdadeira tortura física e emocional.

Polanski nunca seguiu no seu cinema o caminho do sentimentalismo barato e as suas doses de manipulação emocional permanecem por aqui nos mínimos, partindo antes para um filme racional e procedimental, com Picquart a liderar a jornada e a sofrer as suas próprias mazelas, com a sua amantizada Pauline Monnier (Emmanuelle Seigner) como um verdadeiro dano colateral. É aqui neste relacionamento, mais que no próprio Dreyfus, que o cineasta procura criar alguma comoção, talvez até – e especulando – mostrar também que quem está nas imediações de um “perseguido” (Picquart, neste caso) sofre igualmente consequências nefastas (como Emmanuelle Seigner sofreu com todo o escândalo em torno de Polanski).

Nesta demanda e variações entre locais, personagens e situações, jogando com os mais elementares e clássicos tiques do thriller, que tão bem Polanski conhece (Semente do Diabo; Chinatown; O Inquilino), que a montagem de Hervé Deluz se destaca, articulando-se perfeitamente com os enquadramentos dos planos criteriosamente selecionados por Pawel Edelman, e uma banda-sonora tensa, longe dos clichês, do enorme Alexandre Desplat, para produzir um filme rigoroso e cáustico de busca pela verdade, sem nunca verdadeiramente ser seco, frio ou distante.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
j-accuse-o-oficial-e-o-espiao-roman-polanskiUm filme rigoroso e cáustico de busca pela verdade, sem nunca verdadeiramente ser seco, frio ou distante.