Não é a primeira vez, nem será a última, que a cineasta Rubaiyat Hossain se debruça sobre a condição da mulher. Em 2015, já tinha entrado no tema em Under Construction com o estudo das dificuldades de uma atriz de classe média, e no seu primeiro filme – Meherjaan – foi ainda mais longe nas polémicas ao contar uma história de amor entre uma mulher bengali e um soldado paquistanês em plena Guerra da Libertação do Bangladesh. As críticas a esse filme ainda hoje ecoam por toda a Internet e basta visitar a página da IMDB para ver que o filme foi vítima de uma campanha extremista de nacionalismos bacocos e patriarcais que invadiram a página e atribuíram 2.9 de nota.

Muito mais polida, madura e decidida (“Aquilo que não te mata, só te fortalece“), Rubaiyat ataca mais uma vez a sociedade patriarcal neste Made in Bangladesh, apresentado como figura central a jovem Shimu, uma trabalhadora fabril de uma empresa que vende a retalho o que produz para cadeias internacionais do mercado têxtil. As condições laborais são degradantes, o risco de incêndio já se demonstrou fatal, e a forma como estas trabalhadoras são exploradas pelos patrões inquisidores e chantagistas são um reflexo de um mercado de trabalho ainda com muito para legislar e, mais importante, fazer cumprir e executar judicialmente as normas.

O interessante por aqui é que – longe do panfleto feminista plastificado e mercantilizado – existe o cuidado da realizadora em manter toda a ação circunscrita a um único objetivo, algo que parece simples, mas que vai revelar-se um verdadeiro cabo dos trabalho: Shimu é uma heroína improvável pois quer reunir assinaturas para criar um sindicato e assim proteger todas as trabalhadoras da empresa. As consequências imediatas dessa tentativa são pressões e verdadeiro bullying patronal, isto num país com excesso de procura em relação à oferta de empregos, tendo os patrões a faca e o queijo na mão para despedir, sem justa causa, qualquer “rebelde” que vá contra os seus desígnios.

Mas não é apenas no trabalho que as críticas ao patriarcado se manifestam. Na sua vida quotidiana e familiar, Shimu tem de lidar com a toxicidade de um marido desempregado que exige que ela faça o que ele quer, como abandonar a ideia de criação do sindicato. O curioso é que o próprio marido é um exemplo claro de aproveitamento da sociedade dominada por elementos do sexo masculino como demonstração de poder e hierarquia das decisões, mas simultaneamente também ele “uma vítima“, pois essa mesma sociedade ao colocá-lo como “o chefe da família” exige dele o “sustento” e a liderança do agregado.

Com ecos de emancipação e respeito pela condição da mulher do cinema de Satyajit Ray (A Grande Cidade; Charulata; A Casa e o Mundo), que a realizadora sempre admitiu ser uma inspiração no seu trabalho, Rubaiyat Hossain balança bem todos os elementos fracturantes da sociedade contemporânea neste seu Made in Bangladesh, construindo uma peça de cariz neorrealimo social bem filmada e fotografada, onde as cores vibrantes da vestes e almas guerreiras contrastam frequentemente com o cinzentismo da selva de betão que os acolhe.

E com isso constrói uma história particular de ressonância Universal, até porque os problemas e desigualdades estão em todo o lado, não apenas no Bangladesh.



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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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