É inevitável comparar este The Report a O Caso Spotlight, Os Homens do Presidente e The Post, mas ao contrário de um trabalho feito para um meio da comunicação social, por aqui temos a investigação e o montar de uma história através da leitura de milhões e milhões de documentos da CIA por parte de Daniel Jones (Adam Driver), a pedido da senadora Dianne Feinstein (Annette Bening), para produzir um relatório sobre a atuação da agência de segurança norte-americana no pós 11 de setembro.
Driver respira obsessão, mas nunca paranóia, neste filme carregado de claustrofóbicas cenas interiores, sufocadas por uma palete de cores frias que cercam um grupo de pessoas que tem de montar um puzzle a partir de milhões de peças. Annette Bening colabora nesta sensação de profunda impotência, pressão e sufoco institucional a que organismos eleitos têm de se submeter perante uma agência cujos líderes foram nomeados e encontram como força maior ordens que vêm diretamente da Casa Branca.
E apesar de George Bush e Dick Cheney saírem mal na fotografia de todo o processo de detenção e tortura para recolha de informações, é também verdade que a administração Obama sai abalada no facto de ter colocado entraves à investigação dos pecados da agência que o presidente democrata baniu mal entrou para o cargo. Uma cena é bastante explícita quanto a essas críticas e sucede ao assassinato de Osama Bin Laden, quando alguém diz que a CIA acabou de dar a Obama um segundo mandato na Casa Branca.
No pior por aqui, existe sempre a sensação de motivações ligadas ao propagandistico moral high ground norte-americano, uma altivez ao altruísmo inscrito nas bases da construção dos EUA, frequentemente citados para realçar os caminhos menos claros dos tempos atuais, que conduziram a exceções democráticas à la Jack Bauer de 24 (também citado por Driver numa cena).
Circulando entre passado e presente, onde se reconstituem os atos de tortura que nunca realmente produziram efeitos, já que a informação obtida aos 119 detidos foi conseguida por outras vias, The Report desperta também – como tantos outros – aqueles que enriqueceram no processo, as empresas contratadas que baseadas em alegada “ciência” criaram um sistema avançado de recolha de informação na base da força, onde se incluem os métodos de tortura já vistos em obras como Zero Dark Thirty. O filme de Kathryn Bigelow é mesmo apresentado num momento num ecrã, enquanto Adam Driver se vê atolado em toneladas de informação, com pouco pessoal e meios para a ler, e sempre com a presença na mente que tudo o que investiga pode nunca ver a luz do dia.
Nisto, consegue mais Scott Z. Burns sobre o tema, e sem chico-espertismo mascarado de sarcasmo, que Soderbergh no seu Laundromat, filme que contava com o argumento de Burns, mas que foi transformado num discípulo do cinema de Adam McKay.
Aqui, Soderbergh está na produção, e embora o filme não seja o supra sumo do dinamismo e suspense, e se perca na condensação das 7 mil páginas que o relatório original tinha e em demasiados procedimentos factuais, revela-se ainda assim muito mais sóbrio, sério e conseguido do que o exemplo citado sobre o escândalo dos papéis do Panamá.















