Depois de um empolgante Brick Lane e de passo cinematográfico demasiado morno com Suffragette, Sarah Gavron explode com o seu Rocks, um filme guerrilha de assumidos contornos verité que conta a história de uma jovem de 16 anos – apelidada pelos amigos de Rocks – que é confrontada com a súbita ausência da mãe, ficando com o pequeno irmão ao seu cuidado.
É através de uma câmara constantemente a tremelicar, a colar-se de forma sufocante nas personagens, quase que as atropelando, que Gavron – com ajuda da diretora de fotografia Hélène Louvart e a editora Maya Maffioli – executa um trabalho notável de neorrealismo à britânica de forte cunho gaulês, com filmes de Céline Sciamma (Bando de Raparigas) e Houda Benyamina (Divinas) a virem inevitavelmente à cabeça [Beach Rats de Eliza Hittman também vem à memória), para além da natureza social de um Ken Loach, Andrea Arnold (Fish Tank) ou dos irmãos Dardenne.
O elenco, praticamente todo no feminino, tal como a equipa tecnica, nao caiem aqui como uma manobra de marketing para a geração Time’s Up, encontrando-se este bando de raparigas (das mais diversas etnias e raças), que vagueiam pelas ruas da cidade, escola e casa), no centro de todo um processo cinematográfico, desde a sua conceção à realização.
O que sai daqui é um filme com uma energia inesgotável, de forte vertente dramática mas sem cair na mais pilantra das manipulações emocionais e que arranca dos seus não-atores interpretações fulminantes, em particular de Bukky Bakray, uma figura que enche o ecrã até pelo menos o pequeno D’angelou Osei Kissiedu chegar com toda a sua ternura e inocência contagiantes.
A forma como a cineasta também usa o papel das redes sociais, a música, e os próprios diálogos (sempre fluídos e ausentes de plasticidade), revelam um profundo trabalho de investigação, pois nunca sentimos que observamos os eventos e situações pelos olhos de um adulto, um “adult gaze” se assim o entenderem apelidar. Foi especialmente aqui que se destacou o cérebro por trás desta história, a dramaturga Theresa Ikeke (um nome a memorizar), que juntamente com Claire Wilson escreveu um dos filmes mais interessantes e até urgentes do ano, mesmo que a sua história – a tal narrativa que o cinema parece cada vez mais depender (ao jeito da literatura) – seja algo já visto, como até no ano passado em Føniks da norueguesa Camilla Strøm Henriksen, onde uma jovem também era confrontada com a ausência da mãe e tinha de cuidar da irmã mais pequena.
A questão é que neste Rocks, o exercício de estilo de Gavron é avassalador, ajudando a história escrita por Ikeke a contar-se para além do texto. E esse é o seu maior triunfo como Cinema.















