O segundo trabalho de realização de Carlos Saboga, argumentista a quem devemos agradecer pelas felizes incursões de O Lugar do Morto, de António-Pedro Vasconcelos, e Os Mistérios de Lisboa, de Raúl Ruiz, é um filme que nos transporta, essencialmente, a um Portugal oprimido que se digna ainda a sonhar com a sua “fantasia lusitana”.
Nesse período, o país atravessava um enorme cerco social, sentindo-se constantemente ameaçado pelo desconhecido residido “à sua porta”, trazendo consigo entidades de uma guerra nunca imaginada pelos portugueses (o tema dos refugiados ainda hoje é motivo de discussão). Tal análise dessa nação “congelada”, incutida numa politica de medo e de fortes traços nacionalistas, encontra-se imergida na própria miopia cénica que este A Uma Hora Incerta apresenta. Até poderemos argumentar essa tal limitação como uma opção orçamental, mas na verdade o sucessor de Photo (o filme de estreia de Carlos Saboga no cargo de realizador) funciona como um pequeno exercício de “pseudo-espionagem”.
Aqui os portugueses não brincam aos espiões nem agentes morais, jubilam sim, com a sua própria ignorância sociológica … e sexual. Até porque acima das suas veias de thriller, A Uma Hora Incerta assume-se com um erotismo constrangido, uma sexualidade de “buraco de fechadura”, onde a eventual libertação nesse foro é sentida, mas nunca devidamente cumprida. Saboga criou um argumento astuto que joga com as referências culturais da época e com a referente prevalência religiosa, auferindo similaridades e alusões, entre os quais uma pressentida ligação com a história bíblica de Lot.

Trata-se de um filme que não envergonha ninguém, concebido com diálogos bem construídos e uma montagem trabalhada em prol da sua profissional fotografia, da autoria de Mário Barroso, e com um toque final dado por um conjunto de atores capazes de transmitir para fora do ecrã as suas respetivas personagens com muitas dividas aos arquétipos sociais. Entre as quais, destaque para Joana Ribeiro, a “lolita” lusitana com o seu quê de perversão psicótica.
Tudo isto para sublinhar que esta obra, em conjunto com a trilogia As Mil e uma Noites, de Miguel Gomes, e a declaração de amor cinéfilo por Manuel Mozos, João Bénard da Costa: Outros Amarão Aquilo que eu Amei, representam o que de bom o cinema português tem dado este ano.


















