
Onde o cinema britânico continua a ganhar pontos a Hollywood é precisamente em filmes baseados em factos verídicos. Seja a grande herança do chamado “realismo britânico”, de facto enraizado até no mais pretencioso dos filmes, seja o que for, o que é certo é que são filmes como Filomena que dão boa reputação às terras de Sua Majestade.
Realizado pelo mais que competente Stephen Frears, e com argumento parcialmente escrito pelo ator Steve Coogan, o filme alia gargalhadas sonoras a lágrimas sentidas, como não chegámos ainda a ver numa das “histórias verdadeiras” vindas de 2013. A história verdadeira de uma sexagenária que procura o seu filho desaparecido há 50 anos, dado para adoção em troca de um abrigo no convento, Filomena não tem medo de mostrar cedo quer a sua componente humanista, quer a relativizá-la (satirizá-la) de imediato, num tom mais leve que o habitual para um nomeado ao Oscar de Melhor Filme (a história de Filomena começa logo por servir aliás para uma hábil crítica á história habitual de “interesse humano”, da qual os media vivem tão sedentos…) .
Este equilíbrio virtualmente perfeito entre água e azeite, humanidade e cinismo, aparentemente impossível de se misturar bem, é um dos grandes trunfos do filme, a par, claro está de todo o realismo – desta feita com recurso a imagens de “videos caseiros”, em que a realidade de um deles se funde com a ficção sem o espectador dar conta. Mérito de Frears, do argumento, e claro dos atores: Coogan a bisar aqui como jornalista político é tão divertido como em qualquer obra que o tenhamos visto, e Judi Dench é Judi Dench – é fabuloso ver como a atriz pega, mais uma vez, num destes papéis, e parece que nasceu com ele. No dia em que vermos Dench não pegar num papel e correr com ele, aí sim, podemos pensar no apocalipse.
Em suma, uma das melhores confirmações da temporada de prémios.
O melhor: O realismo, o equilíbrio virtualmente perfeito entre lágrimas e gargalhadas, humanidade e cinismo.
O pior: Não deixar de ser uma história verídica, de A a B.

André Gonçalves

