Se o mundo do crime no Japão e China tem sido amplamente adaptado ao cinema, o mesmo não se pode dizer da Coreia do Sul, onde a criativa e popular indústria cinematográfica tem pendido para temas mais ligados ao terror, comédia e drama do que ao crime propriamente dito.
Park Hoon-Jung, mais conhecido como argumentista de Eu vi o Diabo, parece querer quebrar com essa tendência com o seu mais recente trabalho, New World, uma visão inteligente e intimista do submundo do crime coreano.
Após a morte, aparentemente acidental, do líder da organização Goldmoon, uma extensa organização criminosa com tentáculos espalhados pela Ásia, a crise de liderança representa a melhor oportunidade para as autoridades controlarem de vez tão perigosa ameaça. Para o conseguir, o chefe de polícia Kang, representado por Choi Min-Sik (OldBoy), é obrigado a utilizar todos os truques e manhas, incluindo a manipulação e abuso de Ja-Sung, um polícia infiltrado nas mais altas instâncias da Goldmoon há mais de 8 anos. Os dois sucessores ao trono, Ja-Sung e Lee Joon-Go, entram numa tensa discussão pelo título, enquanto que o polícia infiltrado se vê numa intensa batalha pessoal à procura de que lado é que de facto a sua lealdade pende: polícia ou criminosos.
O enredo de New World pode parecer um pouco batido e sem dúvida que o inicio do filme ameaça ser uma sequência interminável de discursos repletos de testosterona, piscar de olhos irónicos e sorrisos maléficos, mas felizmente o filme tem a capacidade ser muito, mas muito mais.
O argumento é incrivelmente inteligente, com diálogos apurados até à perfeição, mascarando várias texturas e subtemas, sem nunca perder o fio à meada. O desenvolvimento das personagens é igualmente rico, cada uma sendo explorada até ao máximo, todas capazes de cativar empatia e repugnação em igual medida.
A relação entre os dois candidatos ao título da liderança da Goldmoon é intrigante e devoradora no sentido em que nunca deixa de crescer em termos de tensão controlada, ameaçando explodir a qualquer momento, sem nunca de facto o fazer desnecessariamente.
Acima de tudo, Park Hoon-Jung escreveu um argumento astuto e engenhoso, misturando clichés, surpresas e violência gráfica em doses recomendáveis, capazes de nos manter despertos apesar dos apenas breves mas brutais interlúdios de ação durante as mais de duas horas de filme. As semelhanças com O Padrinho de Coppola são inevitáveis, já que claramente norteiam a inspiração por detrás da narrativa mas, no entanto, New World reserva uma saudável parcela de originalidade tão típica do cinema coreano moderno.
A estética do filme é irrepreensível. Outra coisa não seria de esperar de um filme cuja ficha técnica inclui Chung Chung Hoon, diretor de fotografia de filmes como Oldboy, Thirst – Este é o meu sangue e Stoker; Chohwa-Sung, designer de produção de Eu vi o Diabo ou Vingança Planeada; e Moon Sae-Kyoung, editor de Mother – Uma Força Única.
New World concentra o melhor talento disponível na Coreia do Sul, resultando num filme a não perder para todos os amantes do cinema gangster e da sétima arte asiática.

Fernando Vasquez

