Veneza: «Miss Violence» por Fernando Vasquez

(Fotos: Divulgação)

A lua de mel da sétima arte grega ganha novo fôlego com o mais recente trabalho de Alexandro Avranas que, não muito longe da visão dos compatriotas que o antecederam, apresentou-se em Veneza com uma obra de peso que promete levar o novo cinema grego um passo ainda mais longe.

Miss Violence conta-nos uma história que se passa do outro lado da porta de um apartamento vulgar, num prédio como outro qualquer. A família que vive no interior é ela também perfeitamente banal: Aparentemente feliz, carinhosa e coesa. No dia do 11º aniversário de Angeliki, uma das filhas mais novas, toda a paz aparente parece desmoronar-se quando a aniversariante resolve saltar da varanda.

O suicídio é o convite indesejado para entrarmos numa realidade que não a nossa, sem que nunca deixemos de nos sentir intrusos. Aos poucos e poucos descobrirmos que o poder patriarcal que inicialmente aparenta ser fruto de respeito merecido, esconde de facto algo bastante mais sinistro e chocante.
Se existem filmes que se exigem em estado virgem Miss Violence é sem dúvida um deles. Qualquer descrição mais aprofundada do argumento seria uma desfeita imperdoável. Felizmente trata-se de uma obra de tal maneira rica e multidimensional que muito há a dizer sem o desvendar injustamente.

Avranas apresenta-nos aqui uma visão brutal dentro de um formato algo contraditório e arriscado, mas cujos resultados são inequivocamente tão eficazes como brilhantes. A nível técnico, no filme não se deslumbram grandes esforços. A câmara de Avranas é discreta, preferindo apresentar um cenário estéril e vazio em troca de uma tensão narrativa alimentada pelas performances controladas de Themis Panou (laureado em Veneza) e Reni Pittaki, e acima de tudo por uma ausência de excesso e extras. Não se trata de um filme minimalista, longe disso, este é um filme com uma alma e potencial enorme, que quando eventualmente explode deixa muitos feridos e moribundos à sua volta. A tensão vive acima de tudo estampada nas caras e olhares das mulheres da família, que em silêncio nos revelam que algo de muito errado se passa dentro daquelas quatro paredes, como quem amedrontadamente pede socorro ao mesmo tempo que se resigna a um martírio interminável.

O final ambíguo, capaz de gerar várias interpretações, dependendo do pessimismo de cada um, funciona como um fechar da porta. A partir daquele momento a nossa presença dentro do apartamento deixa de ser permitida e somos lançados à rua para sempre perturbados pelo universo criado por Avranas.

A estas mazelas há que juntar o esforço adicional necessário para enfrentar o início demasiado lento do desenrolar do mistério. Mas que não haja duvidas, todos os esforços são recompensados, já que Miss Violence promete vir a ser uma das mais vitais e importantes experiências cinematográficas do ano.


Fernando Vasquez

Últimas