A Arte como a conhecemos é uma construção recente: durante a Revolução Francesa, a destruição de várias obras de Arte associadas ao Antigo Regime levou a que alguns (Abbé Grégoire e Alexandre Lenoir, por exemplo) a condenassem como vandalismo e à criação de Museus. Inicialmente refúgio destes poucos objetos considerados de valor artístico, pouco a pouco o museu foi-se transformando no seu destino natural e desenvolvendo a sua faceta de educação histórica paralelamente à da apreciação da Arte pelo seu valor artístico (por oposição à sua função social). Com a institucionalização do conceito da Arte em práticas sociais e estéticas determinadas, o conceito do Museu foi-se tornando demasiado rígido e foi sendo criticado por vários (como Malraux). Em “Museum Hours”, Jem Cohen, realizador conhecido pelas suas parcerias musicais e também autor de instalações artísticas, reflete sobre a Arte e a forma como esta se relaciona com a vida. De forma (ir)reverente, o realizador “abre” o Museu de Belas Artes de Viena (Kunsthistorisches Museum) e sobrepõe-no à cidade e ao quotidiano. Mais do que uma tentativa de estetizar o real, o realizador pretende interrogar a institucionalização da Arte e abri-la ao nosso dia-a-dia.

Anne, canadiana, voa até Viena para ver a sua prima com quem não fala há anos porque esta foi internada no hospital e não há outros parentes mais próximos. Com a prima em coma, Anne passeia por Viena e conhece Johann, um segurança no Museu de Belas Artes. Entre os dois desenvolve-se uma amizade e o filme divide-se entre a arte do museu (com passagens do guia áudio e visitas guiadas), as ruas de Viena (a arquitetura, os mercados e as pessoas) e as conversas entre os dois. É um filme que lembra outros (“Brief Encounter”, “Lost in Translation”), mas sem contornos amorosos, explorando uma amizade de uma forma invulgar no cinema.

Tendo em conta que é um filme de Arte, é claro que a fotografia do filme é exemplar, com planos dos quadros e do museu a intercalarem-se com planos da rua e da vida em restaurantes, mercados e pontos turísticos. No entanto, é um filme com um passo lento, contemplativo, que não irá agradar a todos os que o virem (e até os que gostem dele o podem achar demasiado arrastado em momentos), mas esse é um mal menor. Com uma visão positiva da Humanidade, o filme pode encantar todos os que o permitirem.

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Pontuação Geral
João Miranda
indielisboa-museum-hours-por-joao-mirandaCom uma visão positiva da Humanidade, o filme pode encantar todos os que o permitirem