Em 2020, quando a pandemia castigava com severidade as operações do circuito global de festivais, a ponto de adiar as atividades de Cannes, San Sebastián revelou uma pequena joia do cinema georgiano chamada Beginning, que transformou a realizadora Dea Kulumbegashvili, até então conhecida pelas suas curtas-metragens, numa aposta segura para o futuro. A Concha de Ouro conquistada pelo filme apontava um caminho a ser desbravado pelos próximos passos da criação autoral. Um sentimento similar ao que se passou com Dea fez-se notar na projeção de Krux no Teatro Principal. Tony Vahl (de Unter Null) estreia-se nas longas-metragens com uma destreza comparável à da colega da Geórgia, há seis anos, num domínio pleno da tensão enquanto esmiúça um dos traumas mais indigestos da sociedade alemã: a onda de suicídios que varreu o país no final da II Guerra Mundial.

O título do seu introspectivo estudo sobre alienação e perplexidade — aplicadas a uma comunidade que se recusa a admitir a derrota de Hitler — foi traduzido em espanhol como Crucifixión, mas Krux sugere ainda o peso de algo entalado no peito e na garganta. A culpa pelo Holocausto faz parte dessa azia histórica e reaparece como motivo relevante nesta edição de Donostia, vide The Housewife, com Naomi Watts.

Inspirada em acontecimentos reais, a primeira longa de Vahl isola-nos numa pequena aldeia do nordeste alemão, nos derradeiros momentos da guerra. Com a maioria dos homens na frente de batalha, restam sobretudo mulheres e crianças, além de poucos adultos, agarrados aos rituais da escola, da igreja, do trabalho e dos casamentos enquanto o regime nazi ordena que nada vivo seja deixado para o inimigo. Corpos sem nome começam então a emergir do rio. Ninguém sabe quando os adversários chegarão e os rumores ocupam o lugar dos factos, fazendo nascer um medo maior do que a própria ameaça externa.

Vahl conta com um elenco afinado, liderado por Jella Haase e que inclui Clemens Schick, de Praia do Futuro, Frida-Lovisa Hamann e Lukas Miko, com especial destaque para o pregador religioso interpretado com fúria por Martin Wuttke, numa interpretação de atordoar. A mesma precisão marca a fotografia de Piotr Sobociński Jr.: embora a cores, a composição evoca o rigor dos enquadramentos de Michael Haneke em The White Ribbon, Palma de Ouro de 2009. A aproximação vai além da forma. Se Haneke procurava o ovo da serpente, sondando as raízes sociais e morais que alimentariam o nazismo, Vahl desloca-se para a outra extremidade da História: filma o seu ocaso, quando uma crença coletiva começa a desmoronar-se e deixa uma população diante daquilo que se recusava a ver.

Com 92 minutos e uma economia narrativa que converte espera em asfixia, Krux chega à competição de San Sebastián depois da passagem por Toronto, confirmando a força de uma cineasta formada em Psicologia e Arte antes de estudar realização na Universidade de Cinema Konrad Wolf, em Babelsberg. Depois de curtas como Gömböc, Vahl encontra aqui uma linguagem madura para perguntar o que acontece quando a História finalmente obriga uma comunidade a engolir aquilo que passou anos a negar.

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Rodrigo Fonseca
krux-tony-vahl-filma-o-colapso-de-uma-alemanha-que-se-recusava-a-verDepois de curtas como "Gömböc", Vahl encontra aqui uma linguagem madura para perguntar o que acontece quando a História finalmente obriga uma comunidade a engolir aquilo que passou anos a negar.