Há muito que Donostia abre uma das suas salas de projeção mais populares, o Teatro Principal, à exibição de séries e telefilmes, habitualmente integrados em programação paralela. Desta vez, Mis muertos tristes, minissérie de Pablo Larraín para a Netflix, entrou diretamente na competição pela Concha de Ouro numa versão de três horas e sete minutos apresentada como longa-metragem. É uma situação inédita: uma série televisiva concorre pela primeira vez ao principal prémio do festival. O realizador chileno, responsável por No, nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2013, levou a sessão de domingo à noite até ao fim sem perder sequer 5% do público, apesar da extensa duração, graças a um domínio notável das ferramentas do suspense. A montagem de Sofía Subercaseaux deixou a crítica atónita com uma proposta — imperfeita, mas imperdível — de transformar aquilo que poderia ser um terror sobre a comunicação com o Além num drama tenso e metafísico sobre a empatia. É um suspense que dói, mas que, na secura habitual do seu realizador, não faz chorar.

Dizer que fantasmas estão à solta em Donostia — nome basco da cidade de San Sebastián, no norte de Espanha — não é mero jargão, a julgar pela programação da 74.ª edição do festival. O certame arrancou com um filme alemão de Fatih Akin, Geister / Ghost Song, e encontrou a sua experiência espectral mais ambiciosa na obra de Larraín, construída a partir do universo literário da argentina Mariana Enriquez. A minissérie estreia na Netflix no próximo dia 24, mas ganhou aqui uma existência cinematográfica própria, em disputa pela Concha de Ouro.

Se os mortos ocupam a narrativa, são os vivos que dão músculo ao filme. Mercedes Morán, presidente do júri da Première Brasil do Festival do Rio em 2024, alcança uma das interpretações mais complexas da sua carreira como Ema, médica recém-reformada capaz de ver, ouvir e até tratar espíritos. Ainda a processar a morte da mãe, ela vê o seu frágil equilíbrio abalado pela chegada da sobrinha Julie (Carolina Álvarez) e pelo assassínio de três adolescentes em Piedrabuena, bairro periférico atravessado pela violência. O que até então era uma faculdade — ou condenação — particular começa a contaminar a comunidade: os mortos tornam-se visíveis e cada habitante passa a confrontar-se com os seus próprios fantasmas.

A partir daqui, Mis muertos tristes encontra uma curiosa afinidade com Body (2015), de Małgorzata Szumowska. Nos dois casos, a comunicação com os mortos interessa menos como mecanismo de terror do que como dispositivo para sondar aquilo que os vivos não conseguiram resolver. Larraín, porém, troca a ironia desconcertante da realizadora polaca por uma aridez emocional quase clínica. Gravita pelas sendas do género sem procurar o susto, preferindo transformar a mediunidade numa espécie de doença coletiva da memória.

Dolores Fonzi, que esteve em San Sebastián no ano passado com Belén, surge como uma artista visual capaz de fotografar os ectoplasmas que procuram assistência. Também ela carrega uma dívida com o passado, ligada à morte de um antigo namorado por abuso de morfina. Larraín vai assim multiplicando pequenas assombrações particulares até fazer do sobrenatural uma forma de convivência com a culpa. É quase um Nosso Lar hispânico, mas despido de catecismo: interessa-lhe menos estabelecer uma doutrina do Além do que investigar a possibilidade de compreender a dor alheia.

O virtuosismo técnico impede que as mais de três horas se transformem num fardo. Além da montagem de Subercaseaux, há um trabalho notável de Sergio Armstrong, parceiro habitual de Larraín desde títulos como No e El Club. A sua fotografia evita transformar o sobrenatural num parque de efeitos e mantém vivos e mortos dentro de uma mesma matéria visual, fazendo da aparição algo simultaneamente quotidiano e inquietante. A ficha oficial do festival confirma Armstrong na fotografia e Subercaseaux na montagem.

No fim, Mis muertos tristes fala de fantasmas porque precisa de falar dos vivos. Daqueles que partiram sem resolver as suas histórias e, sobretudo, dos que ficaram condenados a carregá-las. Larraín encontra aí um suspense que não depende do medo do que existe depois da morte, mas daquilo que somos incapazes de reparar antes dela.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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