Comparado pela crítica a The White Ribbon, Palma de Ouro de 2009 atribuída a Michael Haneke, Krux impôs-se na conferência de imprensa do Festival de San Sebastián a partir de uma palavra: medo. É a partir dela que Tony Vahl, realizadora alemã estreante nas longas-metragens, estrutura um retrato do interior da Alemanha no final da II Guerra Mundial como uma história de fantasmas, envolta num clima de terror.

“Não queria fazer mais um filme de guerra, até porque não me interesso pelo género, o que me levou a procurar uma forma de acrescentar algo novo… e meu… ao filão, seguindo um veio ético no qual a violência se expressasse apenas através de traços discretos, marcas”, disse Tony ao C7nema. “Fiz um filme sobre o exercício de crer. Houve quem acreditasse no regime nazi. Há quem acredite em heróis. Há quem acredite nas forças da natureza.”
Inspirado em acontecimentos reais, Krux conta a sombria história de uma pequena aldeia no nordeste alemão, quando o regime nazi ordena aos seus cidadãos que não deixem nada vivo para ser encontrado pelo inimigo. A maioria dos homens está na frente de batalha. O que resta é um punhado de mulheres e crianças, além dos poucos homens autorizados a permanecer na aldeia. A vida ainda segue os seus antigos rituais: escola, igreja, casamentos, trabalho. Os habitantes continuam a acreditar que tudo terminará bem.
Tudo muda quando o rio devolve corpos que ninguém consegue identificar. Ninguém sabe quando o inimigo chegará, nem o que acontecerá quando isso acontecer. Rumores preenchem o silêncio onde deveriam estar os factos. Desse silêncio cresce um medo maior do que o avanço dos Aliados: a hipótese da derrota de Hitler.
“Nessa aldeia, onde todos têm segredos, o território é tão pequeno que as pessoas podem observar a rotina umas das outras a partir das suas janelas”, diz o diretor de fotografia Piotr Sobociński Jr. “O nosso trabalho visual foi investir numa paleta de cores mais sombrias do que o normal, cortando aquilo que houvesse de verde pelo caminho.”
Assente num compasso nervoso de montagem, com edição de Nikodem Chabior, Krux, coprodução entre a Alemanha e a Polónia, foi definido por Tony Vahl como um conto sobre a cultura das fake news. “A manipulação faz parte daquele mundo”, diz Vahl.
O Festival de San Sebastián prossegue até ao dia 26 de setembro.

