O trabalho doméstico é um labor invisibilizado e, quase sempre, sustenta o bem-estar de pessoas socialmente privilegiadas que exploram a mão-de-obra desta classe trabalhadora. Perante a falta de perspetiva nos seus países de origem, muitas mulheres veem-se obrigadas a migrar em busca de trabalho para sustentar os filhos. Bulakna 2025, a primeira longa-metragem da argumentista e realizadora portuguesa Leonor Noivo (1976-), documenta esta realidade.

Precisamente, a realidade de mulheres filipinas que migram para países europeus para trabalharem como empregadas domésticas. Enfrentando uma nova forma de colonização, sofrem opressão e veem as suas vidas e a sua liberdade controladas pelos patrões. A vida neste tipo de exílio exige resistência e tem um preço elevado para a parte com menos poder. Há empregadores que chegam mesmo a reter os passaportes dos trabalhadores imigrantes. Presas numa lógica global que transforma o cuidado em moeda de troca, as mulheres filipinas deixam as suas próprias famílias para trás, na terra natal, para cuidar de outras famílias que nem sempre as valorizam; vivem divididas entre o sustento e a saudade, entre o dever e a ausência. Migram para sustentar os filhos, vivem sozinhas no estrangeiro, afastam-se das relações afetivas familiares e muito de si fica para trás, para se integrarem na nova sociedade. Como mostra Bulakna, o lema do mundo laboral doméstico é “quanto mais invisível fores, melhor será o teu trabalho”, ainda que isso lhes custe a solidão.

No filme, a empregada doméstica filipina Norma Canda, que vive em Portugal há anos, relata a sua experiência. E ficamos a saber que empregadores europeus exploram a força de trabalho das domésticas filipinas (e não só) e as impedem até de ter vida privada, cerceando-lhes a liberdade. Norma conta que, certa vez, o patrão confiscou o seu passaporte. Com dificuldades, conseguiu fugir desse trabalho-prisão com o apoio de um padre e da Embaixada das Filipinas em Portugal, recuperando o seu documento de identificação. Infelizmente, há muitas pessoas, mulheres e homens, que, ao migrar, perdem as suas identidades — em todos os sentidos — também por causa deste tipo de relação laboral. Além disso, são enormes os desafios humanos por detrás do exílio económico.

Segundo Norma, que continua a trabalhar como doméstica para uma família burguesa em Lisboa, e a partir da articulação com a pequena comunidade filipina e com a Embaixada do seu país, foi tomando consciência dos seus direitos e já não se deixa explorar, apesar de auferir o salário mínimo em Portugal e de ainda viver na casa onde trabalha. Relatou também que, no único dia de folga, aos domingos, as mulheres filipinas se encontram numa igreja católica, momento em que partilham as dificuldades enfrentadas no país estrangeiro. Norma era jornalista no seu país, mas com o salário miserável que recebia era impossível criar os filhos; assim, migrou para Portugal para os sustentar. Contudo, ao longo dos anos, não pôde acompanhar o crescimento deles. Como vemos, há um preço alto a pagar quando se é imigrante.

Norma, juntamente com Leonor Noivo, esteve presente na sessão do filme no Cinema São Jorge, exibido ontem na programação do DocLisboa. No debate, perguntei a Leonor sobre os contratos entre as empregadas e os empregadores; revelou que os contratos são legais e apoiados pelo Governo das Filipinas através de agências de trabalho em Manila, em articulação com agências europeias — agências que, por vezes, atuam de forma escusa, numa rede articulada que explora muitas mulheres domésticas que sonham encontrar na Europa uma melhor condição de vida, já que nos seus países vivem sem perspetiva alguma.

O documentário retrata o impacto do legado colonial nas sociedades europeias contemporâneas e dá visibilidade a um povo sem voz: as mulheres domésticas filipinas. Retrata os resquícios de um passado colonial escravagista visíveis em formas de exploração laboral dos tempos atuais. O título do filme, Bulakna, invoca o nome de uma antiga guerreira filipina que resistiu à invasão colonial.

Leonor conheceu a situação das mulheres domésticas filipinas em 2010, tendo iniciado o projeto do filme em 2019. Disse que, nos anos 1980, migrou com a mãe, que é arquiteta e deixou Portugal para trabalhar em Macau. Era criança na época. Mas, certamente, a condição de migrante da mãe, sendo europeia, não era a mesma das migrantes filipinas em Portugal na atualidade.

Aliás, recentemente foi aprovada a nova Lei de Imigração em Portugal, uma lei que mais penaliza do que protege os direitos dos imigrantes. Portugal é um país com população ativa maioritariamente envelhecida e com muitos jovens que emigraram em busca de melhores condições laborais e profissionais; portanto, um país que precisa de mão-de-obra imigrante. Entretanto, com o crescimento da extrema-direita no país nas últimas eleições, o discurso de negação desta necessidade e de repulsa aos imigrantes, infelizmente, tem aumentado dia após dia.

Bulakna foi produzido pela Terratreme/PT, que também atua como distribuidora de filmes; foi distinguido no FID Marseille (França), em 2025. Esteve na competição do DocLisboa e estreia a 19 de março nos cinemas. O documentário é imperdível!

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Pontuação Geral
Lídia Ars Mello
bulakna-mulheres-migrantes-e-o-mundo-trabalhistaO documentário retrata o impacto do legado colonial nas sociedades europeias contemporâneas e dá visibilidade a um povo sem voz: as mulheres domésticas filipinas.