Transposto o choque diante da desumanidade que sustenta o incidente relatado pela tunisina Kaouther Ben Hania em The Voice of Hind Rajab, o que se observa é um engenho cénico quase teatral, como se a sala de telefonistas do Crescente Vermelho (organização humanitária) fosse um palco. Uma situação real serve de mote: uma menina de seis anos encontra-se presa no carro da sua família, em pleno tiroteio. Todos à sua volta estão inertes, presumindo-se uma morte coletiva. Sem compreender o que se passa, a criança pede ajuda por telefone.

Um grupo de atrizes e atores recria então as ações dos voluntários que atenderam a chamada, numa corrida contra o tempo para conseguir uma ambulância, já que a menina menciona sangue. Não se sabe se está ferida, mas é certo que corre perigo. A dada altura, percebe-se que a zona de Gaza onde se encontra não pode ser alcançada rapidamente. Resta ao coletivo alimentar a esperança da rapariga, com jogos lúdicos e palavras de conforto. O jogral que se forma mexe com o coração da plateia, graças a um elenco afinado. O que rompe qualquer ilusão de encenação é o facto de a voz ouvida não ser de uma intérprete infantil, mas da própria refém.

Ao assumir Hind Rajab da vida real como elemento cénico, Kaouther introduz o Real como matéria de trabalho. Já o havia feito em Four Daughters, ao gravitar entre o vivido e o encenado num dispositivo que evoca Jogo de Cena (2007), de Eduardo Coutinho, e experiências de Pedro Costa. O que radicaliza o processo autoral aqui é o componente trágico da guerra em Gaza, que a realizadora nunca explora de forma mórbida.

O episódio recriado ocorreu a 29 de janeiro de 2024. Nessa altura, operativos do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho receberam uma chamada de emergência: Hind Rajab, uma menina palestiniana de dentes de leite, encontrava-se à mercê de um tiroteio durante a invasão israelita em Gaza.

A própria realizadora estruturou a montagem em parceria com Qutaiba Barhamji e Maxime Mathis, numa dinâmica eletrizante, construída na ciranda entre o desespero dos telefonistas e o de Hind. Há um momento em que um telemóvel surge em cena e expõe o ilusório, revelando a imagem dos voluntários reais. Essa tensão valeu ao filme o Grande Prémio do Júri em Veneza.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
the-voice-of-hind-rajab-espiral-da-tragediaAo assumir Hind Rajab da vida real como elemento cénico, Kaouther introduz o Real como matéria de trabalho. Já o havia feito em Four Daughters, ao gravitar entre o vivido e o encenado